Por: Nathália A. Terra Pereira
Parte significativa das companhias brasileiras hoje desfruta - a despeito das turbulências que se projetam no cenário macroeconômico doméstico e principalmente no internacional - de perspectivas favoráveis de crescimento. Nem sempre foi assim. Juros e dívidas externas elevadas, déficits públicos vultuosos e uma inflação nas alturas dificultavam o ambiente de atuação corporativa até alguns anos atrás.
Entretanto, um dos setores salta aos olhos no que concerne à expansão dos lucros: o bancário. Muitos investidores acostumaram-se em ver nas grandes instituições financeiras brasileiras quase que um sinônimo de ganhos não somente certos, mas crescentes, mesmo com os bancos internacionais enfrentando lá fora um ambiente oposto, marcado por uma crise profunda.
Tal "descolamento" pode estar perto do fim. Não que o setor financeiro brasileiro vá experimentar tamanha deterioração como amargaram - e ainda amargam - as grandes firmas de Wall Street e da Europa. Mas a extrema tranqüilidade, tônica dos últimos resultados corporativos trimestrais, parece mais distante. E a principal razão para tal leitura é o aumento nos custos de captação do setor.
Crise lá fora, maiores custos por aqui
De acordo com números compilados pela equipe da Austin Rating, as 25 maiores instituições financeiras brasileiras observaram no primeiro semestre deste ano um aumento de 20% em suas despesas de captação de fundos, que passaram de R$ 29,73 bilhões na primeira metade de 2007 para um montante de R$ 35,59 bilhões no mesmo período deste ano.
Os analistas Marcelo Peixoto e Milena Zaniboni da Standard & Poor's vêem uma diversidade de fatores para tal acréscimo. "Até meados do ano passado, havia uma gama de opções de captação de recursos nos mercados, como IPOs (Initial Public Offerings), mercado internacional, CDBs, etc. Com a volatilidade lá fora e aqui, a única opção que restou é a dos CDBs, e é claro que tal cenário mais restrito acaba por pressionar os custos", explica Zaniboni.
Desta forma, a crise financeira internacional começa a impactar os bancos brasileiros tanto pelo enxugamento da liquidez no mercado quanto por seu impacto negativo sobre a renda variável, que impede a realização de ofertas públicas de ações como negócios rentáveis de captação de recursos. Com a demanda interna por crédito ainda aquecida, não é de se estranhar que os bancos tiveram que desembolsar mais para sustentar suas carteiras.
Dificuldade de repasse
A principal preocupação de analistas e investidores frente a tal cenário é a de que os bancos não consigam repassar integralmente a alta nos custos de captação, o que, inevitavelmente, daria origem a uma pressão negativa sobre suas margens nos próximos desempenhos trimestrais. Na visão de Luís Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, a resposta para tal conjectura passa necessariamente por uma avaliação mais cuidadosa do tipo de modalidade de crédito em questão.
De fato, Peixoto e Zaniboni ressaltam, por exemplo, a concessão de crédito consignado para aposentados, tido como um dos segmentos mais difíceis de se efetuar repasse de custos, uma vez que a taxa de juro é determinada pelo INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). "Os bancos sofreram bastante nesta modalidade já que a Previdência não reajustou o teto do juro nesse ano", afirma, em leitura similar, Santacreu.
Outro segmento que pesou desfavoravelmente sobre as margens dos grandes bancos brasileiros na primeira metade deste ano foi o de concessão de empréstimos voltados ao mercado de automóveis, cuja concorrência elevada impede um acréscimo muito expressivo nas taxas aplicadas. "Todavia, os prazos foram de forma geral alongados, o que mitiga a pressão negativa", pondera Santacreu.
"Cartas na manga"
Ademais, tais segmentos são contrários à tendência predominante. Como bem ressalta Peixoto, a concessão de empréstimo a pequenas e médias empresas é a grande "carta na manga" das instituições financeiras brasileiras para assegurarem seu histórico positivo de resultados no futuro próximo, dada a sua alta rentabilidade. A modalidade também recebe elogios de Santacreu.
"Com a economia brasileira em momento positivo" - sob a perspectiva de médio e longo prazo - "as pequenas empresas do País cada vez mais precisam de capital de giro, o que impulsiona a expansão do setor", afirma o analista da Austin. No mesmo sentido, Santacreu observa que a modalidade de crédito pessoal já dispõe de juros "altíssimos" e, por esta razão, um repasse dos maiores custos deve ser facilmente conduzido pelos bancos.
Mais um semestre proveitoso
"Portanto, não esperamos grande deterioração nos próximos desempenhos contábeis dos grandes bancos brasileiros, visto que apostamos em um repasse de tais custos de captação maiores no mercado", sentenciam Peixoto e Zaniboni. Conclusão similar é realizada por Santacreu, para quem as instituições estão atentas a fim de manter suas taxas de rentabilidade e qualidade de seus portfólios de crédito.
"O que começamos a ver é uma retirada paulatina de modalidades com margens mais apertadas, como o setor de crédito consignado, e uma aposta maior rumo a modalidades com margens mais atrativas", afirma o analista da Austin, que conclui: "o segundo semestre de 2008 deve se mostrar como mais um período muito proveitoso às principais instituições financeiras do País".
Parte significativa das companhias brasileiras hoje desfruta - a despeito das turbulências que se projetam no cenário macroeconômico doméstico e principalmente no internacional - de perspectivas favoráveis de crescimento. Nem sempre foi assim. Juros e dívidas externas elevadas, déficits públicos vultuosos e uma inflação nas alturas dificultavam o ambiente de atuação corporativa até alguns anos atrás.
Entretanto, um dos setores salta aos olhos no que concerne à expansão dos lucros: o bancário. Muitos investidores acostumaram-se em ver nas grandes instituições financeiras brasileiras quase que um sinônimo de ganhos não somente certos, mas crescentes, mesmo com os bancos internacionais enfrentando lá fora um ambiente oposto, marcado por uma crise profunda.
Tal "descolamento" pode estar perto do fim. Não que o setor financeiro brasileiro vá experimentar tamanha deterioração como amargaram - e ainda amargam - as grandes firmas de Wall Street e da Europa. Mas a extrema tranqüilidade, tônica dos últimos resultados corporativos trimestrais, parece mais distante. E a principal razão para tal leitura é o aumento nos custos de captação do setor.
Crise lá fora, maiores custos por aqui
De acordo com números compilados pela equipe da Austin Rating, as 25 maiores instituições financeiras brasileiras observaram no primeiro semestre deste ano um aumento de 20% em suas despesas de captação de fundos, que passaram de R$ 29,73 bilhões na primeira metade de 2007 para um montante de R$ 35,59 bilhões no mesmo período deste ano.
Os analistas Marcelo Peixoto e Milena Zaniboni da Standard & Poor's vêem uma diversidade de fatores para tal acréscimo. "Até meados do ano passado, havia uma gama de opções de captação de recursos nos mercados, como IPOs (Initial Public Offerings), mercado internacional, CDBs, etc. Com a volatilidade lá fora e aqui, a única opção que restou é a dos CDBs, e é claro que tal cenário mais restrito acaba por pressionar os custos", explica Zaniboni.
Desta forma, a crise financeira internacional começa a impactar os bancos brasileiros tanto pelo enxugamento da liquidez no mercado quanto por seu impacto negativo sobre a renda variável, que impede a realização de ofertas públicas de ações como negócios rentáveis de captação de recursos. Com a demanda interna por crédito ainda aquecida, não é de se estranhar que os bancos tiveram que desembolsar mais para sustentar suas carteiras.
Dificuldade de repasse
A principal preocupação de analistas e investidores frente a tal cenário é a de que os bancos não consigam repassar integralmente a alta nos custos de captação, o que, inevitavelmente, daria origem a uma pressão negativa sobre suas margens nos próximos desempenhos trimestrais. Na visão de Luís Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, a resposta para tal conjectura passa necessariamente por uma avaliação mais cuidadosa do tipo de modalidade de crédito em questão.
De fato, Peixoto e Zaniboni ressaltam, por exemplo, a concessão de crédito consignado para aposentados, tido como um dos segmentos mais difíceis de se efetuar repasse de custos, uma vez que a taxa de juro é determinada pelo INSS (Instituto Nacional de Seguridade Social). "Os bancos sofreram bastante nesta modalidade já que a Previdência não reajustou o teto do juro nesse ano", afirma, em leitura similar, Santacreu.
Outro segmento que pesou desfavoravelmente sobre as margens dos grandes bancos brasileiros na primeira metade deste ano foi o de concessão de empréstimos voltados ao mercado de automóveis, cuja concorrência elevada impede um acréscimo muito expressivo nas taxas aplicadas. "Todavia, os prazos foram de forma geral alongados, o que mitiga a pressão negativa", pondera Santacreu.
"Cartas na manga"
Ademais, tais segmentos são contrários à tendência predominante. Como bem ressalta Peixoto, a concessão de empréstimo a pequenas e médias empresas é a grande "carta na manga" das instituições financeiras brasileiras para assegurarem seu histórico positivo de resultados no futuro próximo, dada a sua alta rentabilidade. A modalidade também recebe elogios de Santacreu.
"Com a economia brasileira em momento positivo" - sob a perspectiva de médio e longo prazo - "as pequenas empresas do País cada vez mais precisam de capital de giro, o que impulsiona a expansão do setor", afirma o analista da Austin. No mesmo sentido, Santacreu observa que a modalidade de crédito pessoal já dispõe de juros "altíssimos" e, por esta razão, um repasse dos maiores custos deve ser facilmente conduzido pelos bancos.
Mais um semestre proveitoso
"Portanto, não esperamos grande deterioração nos próximos desempenhos contábeis dos grandes bancos brasileiros, visto que apostamos em um repasse de tais custos de captação maiores no mercado", sentenciam Peixoto e Zaniboni. Conclusão similar é realizada por Santacreu, para quem as instituições estão atentas a fim de manter suas taxas de rentabilidade e qualidade de seus portfólios de crédito.
"O que começamos a ver é uma retirada paulatina de modalidades com margens mais apertadas, como o setor de crédito consignado, e uma aposta maior rumo a modalidades com margens mais atrativas", afirma o analista da Austin, que conclui: "o segundo semestre de 2008 deve se mostrar como mais um período muito proveitoso às principais instituições financeiras do País".