Por Mauricio R. A. Carvalho
O Grau de Investimento, recebido recentemente pelo Brasil, é apenas parte de um processo mais amplo de crescimento e estabilidade. As perspectivas para nossa economia melhoraram muito ao longo da última década e devemos aproveitar essa nova realidade também para os nossos rendimentos.
Explicarei porque todo brasileiro deve ter ações e como deve ser esse investimento. A realidade econômica do Brasil melhorou nestes 13 anos que se passaram desde a implantação do plano Real. Para entender o que aconteceu, trabalhei com dois períodos: o primeiro teve início em janeiro de 1995, início do plano Real, e o outro em janeiro de 2003, início do último ciclo de crescimento da bolsa, onde foram montadas diversas carteiras de ativos.
Os investidores poderiam optar por aplicar em ações (Índice Bovespa), em renda fixa (CDI) ou numa combinação dessas duas classes de ativos com uma composição fixa durante todo o período. Abaixo três tabelas descrevem as rentabilidades e o risco, medido pelo desvio padrão, dessas estratégias de investimento ao longo de ambos os períodos.

Do ponto de vista da rentabilidade, a melhor estratégia teria sido investir 50% da carteira em bolsa e 50% em renda fixa e manter essa alocação ao longo de todo o período de 13 anos. A aplicação nesse mix de ativos gerou uma rentabilidade de 1.768% no período, contra 1.362% para o CDI e 1.567% para a bolsa. Mas se avaliarmos do ponto de vista do risco, talvez uma alocação de 50/50 tivesse sido muito agressiva, pois submeteu o investidor a sustos demais.
Ao incluirmos a volatilidade da carteira na análise, criamos uma alternativa de alocação que maximiza o retorno em relação ao risco incorrido. Nesse caso, a alocação em bolsa deveria ser em torno de 20% e os 80% restantes ficariam na renda fixa. Observe que o rendimento total dessa carteira, de 1.579%, ainda seria maior que a aplicação em renda fixa ou em bolsa. Porém, a volatilidade seria menor.
A conclusão é que nos últimos 13 anos, valeu a pena ter aplicações balanceadas em duas classes de ativos, bolsa e renda fixa. O percentual aplicado em bolsa poderia ter variado entre 20% e 50%, de acordo com a vontade e a capacidade de correr risco de cada investidor, que explico a seguir.
Nem todo mundo pode aplicar em ações da mesma maneira. Há uma diferença fundamental entre “querer” e “poder” correr o risco inerente a essas aplicações. Um pára-quedista recém-casado, no início de sua carreira, pode querer transferir sua paixão pelo risco na hora de decidir como investir seu dinheiro. Porém, se considerarmos que sua esposa está grávida e que ainda não foi possível acumular um bom patrimônio, talvez não seja uma boa idéia ele submeter toda a sua poupança a quedas bruscas na bolsa.
Uma perda de patrimônio neste momento pode alterar de forma significativa o padrão de vida de sua família. Já um médico cirurgião de 50 anos, no auge de sua carreira, com o consultório lotado e com os filhos criados, pode não gostar de riscos, mas tem maior capacidade de agüentar as oscilações do mercado. Numa crise, seu fluxo de receitas serviria como lastro para esperar uma recuperação do preço das ações sem que ele precisasse alterar seu padrão de consumo. Por isso, devemos dosar a quantidade de ações dentro da carteira de acordo com a vontade e a capacidade do investidor correr riscos.
Outro ponto importante é não tentar acertar quando entrar na bolsa, pois esse é um exercício fútil e a melhor maneira de se ganhar dinheiro é estar no mercado. Digamos que um investidor tenha participado da espetacular subida da bolsa nos últimos cinco anos. Nos 65 meses decorridos desde o início de janeiro de 2003 até o final de maio de 2008, o Ibovespa acumulou uma rentabilidade de 544%.
No mesmo período, o CDI rendeu 129%. Se nesse período de 65 meses, que foi espetacular para investimentos em bolsa, ele tivesse ficado fora nos nove melhores meses, ou apenas 14% da amostra, sua rentabilidade acumulada teria caído para 123%, abaixo do CDI. Ou seja, um erro de pouco mais de 10% em sua estratégia de “market timing” faria com que o investidor corresse muito risco, entrando e saindo da bolsa, e não ganhasse nenhum prêmio por isso.
Se fizéssemos o mesmo cálculo com todo o período desde 1995 o resultado seria ainda pior, a perda de apenas um período, abril de 95, de um total de 161 meses já faria com que o investidor tivesse rentabilidade melhor no CDI do que na bolsa.
Há mudanças importantes no cenário brasileiro que precisam ser incorporadas para as novas estratégias. Como já é percebido pelos investidores do mundo inteiro, o Risco Brasil caiu. Além disso, o país está num ciclo virtuoso de crescimento e estabilidade. Nos próximos meses as taxas deverão ter um repique por conta da conjuntura inflacionária global e a bolsa ainda será bastante volátil, mas esses movimentos devem se reverter já no próximo ano.
Se analisarmos a tendência de longo prazo as taxas de juros devem se manter em patamares médios, muito mais baixos, e a bolsa deverá ter desempenhos muito menos erráticos. Ou seja, valerá mais a pena correr o risco de investir em bolsa no Brasil e ampliar a quantidade de ações nas carteiras.
Os investidores norte-americanos chegam a ter 70% de suas economias em ações, contra menos de 10% dos brasileiros, essa realidade tem tudo para se alterar. Os investidores locais também precisam buscar boas remunerações e a bolsa será cada vez mais a alternativa escolhida. Não há retorno sem risco e a maneira mais rentável de se correr risco no Brasil é investindo na bolsa.
domingo, 24 de agosto de 2008
Será que todo mundo deve ter ações?
Em tempos de baixa no mercado financeiro fica sempre a dúvida se as ações continuam sendo o investimento mais rentável. O professor de finanças, Mauricio Carvalho, fala sobre a alocação em bolsa, faz uma análise da economia desde 1995, mostra o quanto é importante a diversificação na hora de investir e bate na tecla "quanto maiores os riscos maior a rentabilidade".