A expectativa dos economistas e analistas de corretoras, que vislumbram a manutenção do nível de aquecimento da economia brasileira, é de que esse cenário terá reflexos principalmente nos papéis das companhias que dependem mais do mercado interno.
Na semana passada, o Ibovespa atingiu nível recorde no ano, aos 67.405 pontos, no dia 17, apesar de ter fechado a semana em 66.327 pontos, com alta acumulada de 7,77% em novembro e de 76,63% em 2009. Para o final deste ano, os prognósticos não são muito animadores, pois o indicador está batendo as metas que haviam sido traçadas pelas casas.
Para 2010, no entanto, o clima é de otimismo, com expectativas de que o Ibovespa feche o ano entre 80 mil e 90 mil pontos, com valorização de mais de 35% sobre o fechamento de quinta-feira, dia 19.
Recorde histórico
O recorde histórico do Ibovespa foi alcançado em 20 de maio o ano passado, aos 73.526 pontos, embalado pela obtenção do grau de investimento pelo Brasil, no início daquele mês.
"Nosso objetivo para o final de 2010 é de o índice marcar 74.500 pontos, com alguma chance de ir a 80 mil", avalia Marcelo Brisac, estrategista da Itaú Corretora. Para Álvaro Bandeira, economista-chefe da Ágora Corretora, o indicador pode bater na casa dos 80 mil a 82 mil pontos, enquanto nas previsões da Alpes Corretora ele pode ir até 90 mil pontos. Nas contas da Planner Corretora, a bolsa pode ter uma valorização de 25%, isso contando que encerre 2009 entre 65 mil e 68 mil pontos e suba para 80 mil no próximo exercício.
"A economia brasileira engrenou, está havendo recuperação do emprego e a rentabilidade das empresas tende a melhorar e voltar ao nível pré-crise", afirma José Góes, economista da Alpes Corretora, para justificar sua expectativa. A Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 são fatores que devem atrair investimentos e beneficiar as áreas ligadas à infraestrutura.
É consenso entre os economistas que o Produto Interno Bruto (PIB) deverá crescer 5% em 2010, marca revelada pelo Boletim Focus, que capta a temperatura do mercado, divulgado pelo Banco Central no início da semana passada. Ainda de acordo com o BC, os analistas estimam que o Investimento Estrangeiro Direto (IED), aqueles voltados à produção, deve somar US$ 32 bilhões no próximo ano.
As análises de Góes se voltam para as companhias que dependem mais do mercado interno, já que a economia mundial deve mostrar algum crescimento, mas sem sustentação. Nesse cenário, suas apostas voltam-se para ações dos setores de construção civil, concessionárias de serviços públicos, como teles e empresas de energia elétrica, e aquelas ligadas à infraestrutura, além de siderurgia, que recebe reflexos do investimento interno.
De acordo com Brisac, da Itaú, a bolsa está chegando em um nível em que é necessário selecionar os melhores papéis, como das indústrias de bens de capital e de produtos de consumo. "Teremos a volta do investimento no Brasil e não só os gastos", diz ele. "As empresas irão investir e isso beneficia o setor de bens de capital." Além disso, o estrategista aponta a retomada do crédito, o que dá impulso às ações dos bancos médios e também dos itens de consumo que dependem desse financiamento.
Bandeira, da Ágora, espera o fortalecimento do mercado com base na recuperação da economia mundial, o que trará maior rentabilidade para os resultados das empresas. "Isso se soma à liquidez internacional, que está forte e os investidores devem trazer recursos para o Brasil, que sofreu ou está sofrendo menos com a crise", acrescenta o economista-chefe da corretora Ágora, do Banco Bradesco.
As estimativas do banco Geração Futuro para o ano que vem são de alta média de 25% para o desempenho do mercado acionário. Wagner Salaverry, sócio-diretor, ressalva que seus cálculos levam em conta uma carteira selecionada composta por papéis de dez empresas, entre bancos, consumo, siderurgia e mineração, petróleo e papel e celulose.
Celulose e ferro
Para ele, esse grupo de empresas terá aumento de 25% a 30% no Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização, na sigla em inglês), indicador da geração operacional de caixa, em 2010. "Trabalhamos com a perspectiva de recuperação dos preços da celulose e do minério de ferro, por conta da demanda da China, que deverá se manter, e dos Estados Unidos e Europa, que devem apresentar alguma retomada, mas não franca recuperação", afirma Salaverry.
Góes, da Alpes, discorda. Para ele, por depender mais da economia internacional, as "blue chips" não tenderão a superar os setores voltados para o mercado local.
"Se o dólar continuar desvalorizando, o investidor continuar sem opções de investimentos e se não houver qualquer novidade ruim no cenário mundial, podemos consideram um Ibovespa com alta de 25%, avalia Ricardo Martins, gerente de pesquisa da Planner Corretora. Ele destaca, no entanto, que uma alta inesperada de alguns preços, como das commodyties, pode levar o mercado acionário a uma "bolha", o que traria maiores riscos.
Martins também vê potencial de crescimento para as companhias ligadas à infraestrutura, como portos, administração de rodovias, ferrovias e aviação comercial. Segundo ele, as empresas de concessões rodoviárias crescem, historicamente, 1,2 vez o desempenho do PIB. "Se o PIB subir 4,5% ou 5%, esse setor será muito beneficiado."