Com alta de 76% no ano, pessoas físicas vendem ações e embolsam ganhos; fluxo negativo chega a R$ 7,7 bilhões em 2009
Yolanda Fordelone - AE
Com o Ibovespa em alta de 76% em 2009, a pessoa física tem aproveitado os ganhos acumulados para vender ações e embolsar os lucros neste ano em que a aplicação na Bolsa superou com folga outras opções de investimento. Segundo dados diários da BM&FBovespa, compilados pela corretora Link, o fluxo financeiro dos investidores pessoa física para a Bolsa está negativo em R$ 7,7 bilhões no ano, até o dia 12 de novembro. Ou seja, o volume de recursos vendidos supera, em larga escala, o de ingressos.
“A impressão é de que alguns investidores seguraram as aplicações no segundo semestre do ano passado, durante a queda da Bolsa. Este ano, resolveram agir com mais cautela e realizar lucro rapidamente, quando a Bolsa dá repiques de alta. Ele não quer ficar parado, posicionado na Bolsa o tempo todo”, avalia o estrategista da TCX Consultoria, Edgard Tamaki.
Em 2008, o fluxo financeiro dos investidores individuais fechou o ano com saldo positivo de R$ 7,8 bilhões, embora o Ibovespa tenha recuado mais de 41% no período. Mesmo nos piores momentos da crise, a pessoa física injetou dinheiro em ações. Em setembro do ano passado, quando o primeiro de uma série de circuit breakers foi acionado, o saldo entre compras e vendas foi de R$ 488 milhões. Daquele mês até o fim de 2008, o Ibovespa ainda recuaria 31,9%.
“A pessoa física se machucou muito no ano passado, com a enorme queda das ações. Teve prejuízo grande com a estratégia conservadora de comprar e manter a ação na carteira”, lembra o assessor de investimentos da mesa de pessoas físicas da corretora Icap Brasil, Rogério Oliveira. Segundo especialistas, o mercado como um todo não tinha noção da profundidade da crise e do recuo que o Ibovespa sofreria, o que fez com que muitos recomendassem a compra de ações e a manutenção dos papéis na carteira.
O engenheiro Marcelo Barreto, 42 anos, resolveu vender os papéis ainda na virada do ano, após ter ingressado na Bolsa meses antes, no início de 2008. “Aplicava em seis empresas, mas fiquei com apenas uma. Achei que vendendo estaria deixando de perder, pois acreditava na continuidade da queda da Bolsa, como de fato ocorreu”, justifica o investidor, que ainda saiu com lucro. Em março deste ano, ele resolveu recomprar algumas ações. “Me arrependo de ter vendido naquele momento, seria melhor ter esperado os preços subirem. Vejo que a pessoa física entra e sai do mercado no momento errado. O lado psicológico influencia muito”, diz..
Investidor mais ativo
Em 2009, dizem especialistas, os investidores se tornaram mais ativos e arrojados. “A partir de março, quando a Bolsa engatou uma alta mais forte, eles passaram a aproveitar as oscilações fazendo operações mais curtas, para rentabilizar a carteira.” As vendas rápidas, feitas com o objetivo de embolsar o lucro, são apontadas como um dos motivos para o fluxo negativo. “Eu mesmo não estou me expondo por um período prolongado na Bolsa. Passei a fazer operações de dois, três dias”, afirma Tamaki.
Na corretora TOV, cerca de 20% da base de clientes atua em compras e vendas realizadas no mesmo dia (o chamado day trade) e outros 20% em operações de curto prazo que duram alguns dias, conhecidas como swing trade. “Há quatro anos, eu diria que entre 20% e 25% faziam esses dois tipos de negócio”, diz o gerente de home broker da TOV, Valestan Ribeiro.
Operações curtas, que produzem um forte movimento de vendas rápidas, também têm sido feitas, devido à queda de juros, segundo explica Oliveira. “Com o ganho de 0,7%, 0,8% ao mês na renda fixa, alguns investidores migraram parte das aplicações para a Bolsa, mas com o objetivo de rentabilizar a carteira mesmo. Quando conseguem 3% em uma determinada ação que subiu num dia, já retiram o dinheiro.”
Além disso, a própria alta da Bolsa diminuiu o prejuízo de investidores que viram o valor de sua carteira diminuir drasticamente. Segundo especialistas, alguns podem ter sacado os recursos assim que viram a Bolsa subir. “O fluxo negativo indica um movimento de realização. Ao ver a Bolsa atingir determinado patamar, o investidor embolsa o resultado”, afirma Ribeiro. O receio de que a alta não fosse consistente poderia ter provocado as vendas.
“Fascinadas com a alta da Bolsa, nos últimos anos muitas pessoas começaram a investir em ações, acreditando na promessa de ganho fácil”, lembra o professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), Luiz Jurandir Simões de Araújo, para quem o movimento de ingresso de recursos, em parte, pode até ser artificial. “Essas pessoas podem ter perdido o interesse pela Bolsa com a crise e tirado pelo menos parte dos recursos, à medida que houve a recuperação.”
A discussão sobre a possibilidade de a Bovespa estar ou não “esticada”, o que indicaria um movimento de realização, teria aumentado o temor de que a Bolsa volte a cair. De acordo com especialistas, os alertas para quedas se tornaram mais frequentes depois da crise. “Os investidores acompanharam o debate e preferiram não incorrer no erro que cometeram no passado”, diz Tamaki, da TCX Consultoria. “O investidor está mais seletivo, não comprando qualquer ação no pregão ou em ofertas”, acrescenta Araújo, da Fipecafi.
Na contramão do estrangeiro
Ao contrário da pessoa física, o investidor estrangeiro passou a ter uma atitude mais conservadora neste ano, comprando e segurando as ações na carteira. O fluxo já soma R$ 20,1 bilhões em 2009, número bem diferente do visto no ano passado, quando o saldo ficou negativo em R$ 24,6 bilhões. Em 2009, o fluxo só foi negativo em dois meses – janeiro e junho. No primeiro, devido ainda ao reflexo da crise e á fuga de capital dos estrangeiros para os países de origem; em junho, por causa de um movimento de realização natural, após uma alta expressiva na Bolsa, de 46,8%, nos três meses anteriores.
No mais recente boletim da BM&FBovespa, de outubro, os estrangeiros respondiam por 32,7% do volume financeiro negociado na Bolsa. Por conta disso, especialistas se perguntam se agir na contramão deste grupo seria uma boa tática. “Não diria que é a estratégia mais adequada”, comenta Tamaki. “Compram na hora de vender e vendem na hora de comprar. O preço médio, feito em compras regulares, tem que ser feito quando a Bolsa está num movimento de alta”, completa o analista Márcio Noronha, da corretora Link, apontando as compras realizadas no ano passado, enquanto a Bolsa caía. Para especialistas, as vendas realizadas neste ano fazem também com que os investidores individuais percam parte da alta dos preços.
Yolanda Fordelone - AE
Com o Ibovespa em alta de 76% em 2009, a pessoa física tem aproveitado os ganhos acumulados para vender ações e embolsar os lucros neste ano em que a aplicação na Bolsa superou com folga outras opções de investimento. Segundo dados diários da BM&FBovespa, compilados pela corretora Link, o fluxo financeiro dos investidores pessoa física para a Bolsa está negativo em R$ 7,7 bilhões no ano, até o dia 12 de novembro. Ou seja, o volume de recursos vendidos supera, em larga escala, o de ingressos.
“A impressão é de que alguns investidores seguraram as aplicações no segundo semestre do ano passado, durante a queda da Bolsa. Este ano, resolveram agir com mais cautela e realizar lucro rapidamente, quando a Bolsa dá repiques de alta. Ele não quer ficar parado, posicionado na Bolsa o tempo todo”, avalia o estrategista da TCX Consultoria, Edgard Tamaki.
Em 2008, o fluxo financeiro dos investidores individuais fechou o ano com saldo positivo de R$ 7,8 bilhões, embora o Ibovespa tenha recuado mais de 41% no período. Mesmo nos piores momentos da crise, a pessoa física injetou dinheiro em ações. Em setembro do ano passado, quando o primeiro de uma série de circuit breakers foi acionado, o saldo entre compras e vendas foi de R$ 488 milhões. Daquele mês até o fim de 2008, o Ibovespa ainda recuaria 31,9%.
“A pessoa física se machucou muito no ano passado, com a enorme queda das ações. Teve prejuízo grande com a estratégia conservadora de comprar e manter a ação na carteira”, lembra o assessor de investimentos da mesa de pessoas físicas da corretora Icap Brasil, Rogério Oliveira. Segundo especialistas, o mercado como um todo não tinha noção da profundidade da crise e do recuo que o Ibovespa sofreria, o que fez com que muitos recomendassem a compra de ações e a manutenção dos papéis na carteira.
O engenheiro Marcelo Barreto, 42 anos, resolveu vender os papéis ainda na virada do ano, após ter ingressado na Bolsa meses antes, no início de 2008. “Aplicava em seis empresas, mas fiquei com apenas uma. Achei que vendendo estaria deixando de perder, pois acreditava na continuidade da queda da Bolsa, como de fato ocorreu”, justifica o investidor, que ainda saiu com lucro. Em março deste ano, ele resolveu recomprar algumas ações. “Me arrependo de ter vendido naquele momento, seria melhor ter esperado os preços subirem. Vejo que a pessoa física entra e sai do mercado no momento errado. O lado psicológico influencia muito”, diz..
Investidor mais ativo
Em 2009, dizem especialistas, os investidores se tornaram mais ativos e arrojados. “A partir de março, quando a Bolsa engatou uma alta mais forte, eles passaram a aproveitar as oscilações fazendo operações mais curtas, para rentabilizar a carteira.” As vendas rápidas, feitas com o objetivo de embolsar o lucro, são apontadas como um dos motivos para o fluxo negativo. “Eu mesmo não estou me expondo por um período prolongado na Bolsa. Passei a fazer operações de dois, três dias”, afirma Tamaki.
Na corretora TOV, cerca de 20% da base de clientes atua em compras e vendas realizadas no mesmo dia (o chamado day trade) e outros 20% em operações de curto prazo que duram alguns dias, conhecidas como swing trade. “Há quatro anos, eu diria que entre 20% e 25% faziam esses dois tipos de negócio”, diz o gerente de home broker da TOV, Valestan Ribeiro.
Operações curtas, que produzem um forte movimento de vendas rápidas, também têm sido feitas, devido à queda de juros, segundo explica Oliveira. “Com o ganho de 0,7%, 0,8% ao mês na renda fixa, alguns investidores migraram parte das aplicações para a Bolsa, mas com o objetivo de rentabilizar a carteira mesmo. Quando conseguem 3% em uma determinada ação que subiu num dia, já retiram o dinheiro.”
Além disso, a própria alta da Bolsa diminuiu o prejuízo de investidores que viram o valor de sua carteira diminuir drasticamente. Segundo especialistas, alguns podem ter sacado os recursos assim que viram a Bolsa subir. “O fluxo negativo indica um movimento de realização. Ao ver a Bolsa atingir determinado patamar, o investidor embolsa o resultado”, afirma Ribeiro. O receio de que a alta não fosse consistente poderia ter provocado as vendas.
“Fascinadas com a alta da Bolsa, nos últimos anos muitas pessoas começaram a investir em ações, acreditando na promessa de ganho fácil”, lembra o professor da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi), Luiz Jurandir Simões de Araújo, para quem o movimento de ingresso de recursos, em parte, pode até ser artificial. “Essas pessoas podem ter perdido o interesse pela Bolsa com a crise e tirado pelo menos parte dos recursos, à medida que houve a recuperação.”
A discussão sobre a possibilidade de a Bovespa estar ou não “esticada”, o que indicaria um movimento de realização, teria aumentado o temor de que a Bolsa volte a cair. De acordo com especialistas, os alertas para quedas se tornaram mais frequentes depois da crise. “Os investidores acompanharam o debate e preferiram não incorrer no erro que cometeram no passado”, diz Tamaki, da TCX Consultoria. “O investidor está mais seletivo, não comprando qualquer ação no pregão ou em ofertas”, acrescenta Araújo, da Fipecafi.
Na contramão do estrangeiro
Ao contrário da pessoa física, o investidor estrangeiro passou a ter uma atitude mais conservadora neste ano, comprando e segurando as ações na carteira. O fluxo já soma R$ 20,1 bilhões em 2009, número bem diferente do visto no ano passado, quando o saldo ficou negativo em R$ 24,6 bilhões. Em 2009, o fluxo só foi negativo em dois meses – janeiro e junho. No primeiro, devido ainda ao reflexo da crise e á fuga de capital dos estrangeiros para os países de origem; em junho, por causa de um movimento de realização natural, após uma alta expressiva na Bolsa, de 46,8%, nos três meses anteriores.
No mais recente boletim da BM&FBovespa, de outubro, os estrangeiros respondiam por 32,7% do volume financeiro negociado na Bolsa. Por conta disso, especialistas se perguntam se agir na contramão deste grupo seria uma boa tática. “Não diria que é a estratégia mais adequada”, comenta Tamaki. “Compram na hora de vender e vendem na hora de comprar. O preço médio, feito em compras regulares, tem que ser feito quando a Bolsa está num movimento de alta”, completa o analista Márcio Noronha, da corretora Link, apontando as compras realizadas no ano passado, enquanto a Bolsa caía. Para especialistas, as vendas realizadas neste ano fazem também com que os investidores individuais percam parte da alta dos preços.