Com a expansão da agroindústria da cana-de-açúcar no Brasil, um importante tema que tem sido debatido são os possíveis aumentos de preços de alimentos cujas atividades agrícolas vêm sendo substituídas pela canavieira. É certo que nos últimos anos a expansão das lavouras de cana vem se dando tanto sobre áreas destinadas à pecuária como sobre aquelas destinadas a atividades agrícolas que têm apresentado menor rentabilidade comparativamente à da cana. Cumpre lembrar que a produção orientada por rentabilidades relativas de atividades econômicas alternativas é o cerne das economias de mercado e aplica-se a todos os setores. Dentro de certos limites, ditados por segurança alimentar, a economia de mercado é vista como a forma organizacional que garante o maior bem-estar da sociedade.
O debate cana versus alimento não é recente. Ele já ocorreu na época da implantação do Proálcool na metade da década de 70, quando houve expansão significativa da atividade canavieira na região Centro-Sul do País, especialmente no estado de São Paulo, com vista a atender as necessidades de
matéria-prima para a produção do biocombustível. É importante mencionar, de início, que desde a implantação do Proálcool até meados da presente década, período em que a produção de cana quadruplicou, os preços de alimentos apresentaram tendência decrescente, e não crescente como muitos acreditavam.
A preocupação atual da sociedade com a segurança alimentar é plenamente justificável.
Há, no entanto, alguns fatores que permitem concluir que, no Brasil, o impacto da expansão de atividade agrícola voltada à produção de energia sobre os preços de alimentos não irá ser de grande magnitude.
Em primeiro lugar, os ganhos em produtividade devido ao uso de novas tecnologias e de técnicas de manejo adequadas têm sido expressivos em todos os segmentos do agronegócio, o que faz com que a substituição de parte das atividades voltadas à produção de alimentos por aquelas destinadas à
produção de energia não resulte, necessariamente, na diminuição da oferta de alimentos. Além do mais, uma reorganização espacial das atividades voltadas para a produção de alimentos é possível, tendo em vista que existem áreas subaproveitadas no território nacional.
Outro ponto que merece ser mencionado é a existência de excedentes exportáveis de praticamente todos os produtos do agronegócio brasileiro, ou seja, somos exportadores líquidos nesse segmento e, em alguns casos, ocupando o primeiro lugar no ranking mundial. Assim, se nossos parceiros comerciais
propiciarem maior rentabilidade relativa para o álcool, é o álcool que devemos exportar e, racionalmente, os agentes direcionarão mais recursos para os setores mais rentáveis - em médio e longo prazos. Isso irá se refletir de maneira positiva não só no que diz respeito à renda do setor como também à balança comercial.
A expansão da atividade canavieira no Brasil tem permitido aumentar o emprego em determinadas atividades do processo produtivo de forma a compensar a queda decorrente da substituição da colheita manual pela mecanizada, tecnologia sendo implantada pelo setor com vistas a cumprir e até antecipar cronogramas que tratam da eliminação da queima da cana. Observe-se, inclusive, que muitos cortadores estariam sendo inseridos em outras atividades das usinas.
Sabe-se que o problema alimentar do Brasil não é decorrente da falta de alimentos e, sim, de falta de renda. A questão que se coloca então é: os benefícios gerados pelo aumento do produto do setor sucroalcooleiro, que se traduz em aumento de renda - com efeito distributivo a outros segmentos da
economia, como se sabe -, podem ser maiores que os prejuízos causados por eventuais aumentos de preços de alimentos? Acreditamos que sim. Se, por um lado, pensamos que a expansão da atividade canavieira não irá acarretar problemas significativos de segurança alimentar no Brasil, por outro,
acreditamos que essa expansão deva ocorrer de forma a garantir a sustentabilidade da atividade, o que requer a adequação às normas sociais e às que tratam da preservação do ambiente.
Nesse contexto de expansão, é importante que os agentes envolvidos no processo produtivo, especialmente os fornecedores de cana, tenham em mente que alguma diversificação dentro da propriedade agrícola se faz necessária de forma a minimizar riscos. A expansão da oferta e da demanda nem sempre vai ocorrer de forma plenamente harmonizada de modo a assegurar, em todos os anos, preços compensadores.
(Mirian Rumenos Piedade Bacchi)
O debate cana versus alimento não é recente. Ele já ocorreu na época da implantação do Proálcool na metade da década de 70, quando houve expansão significativa da atividade canavieira na região Centro-Sul do País, especialmente no estado de São Paulo, com vista a atender as necessidades de
matéria-prima para a produção do biocombustível. É importante mencionar, de início, que desde a implantação do Proálcool até meados da presente década, período em que a produção de cana quadruplicou, os preços de alimentos apresentaram tendência decrescente, e não crescente como muitos acreditavam.
A preocupação atual da sociedade com a segurança alimentar é plenamente justificável.
Há, no entanto, alguns fatores que permitem concluir que, no Brasil, o impacto da expansão de atividade agrícola voltada à produção de energia sobre os preços de alimentos não irá ser de grande magnitude.
Em primeiro lugar, os ganhos em produtividade devido ao uso de novas tecnologias e de técnicas de manejo adequadas têm sido expressivos em todos os segmentos do agronegócio, o que faz com que a substituição de parte das atividades voltadas à produção de alimentos por aquelas destinadas à
produção de energia não resulte, necessariamente, na diminuição da oferta de alimentos. Além do mais, uma reorganização espacial das atividades voltadas para a produção de alimentos é possível, tendo em vista que existem áreas subaproveitadas no território nacional.
Outro ponto que merece ser mencionado é a existência de excedentes exportáveis de praticamente todos os produtos do agronegócio brasileiro, ou seja, somos exportadores líquidos nesse segmento e, em alguns casos, ocupando o primeiro lugar no ranking mundial. Assim, se nossos parceiros comerciais
propiciarem maior rentabilidade relativa para o álcool, é o álcool que devemos exportar e, racionalmente, os agentes direcionarão mais recursos para os setores mais rentáveis - em médio e longo prazos. Isso irá se refletir de maneira positiva não só no que diz respeito à renda do setor como também à balança comercial.
A expansão da atividade canavieira no Brasil tem permitido aumentar o emprego em determinadas atividades do processo produtivo de forma a compensar a queda decorrente da substituição da colheita manual pela mecanizada, tecnologia sendo implantada pelo setor com vistas a cumprir e até antecipar cronogramas que tratam da eliminação da queima da cana. Observe-se, inclusive, que muitos cortadores estariam sendo inseridos em outras atividades das usinas.
Sabe-se que o problema alimentar do Brasil não é decorrente da falta de alimentos e, sim, de falta de renda. A questão que se coloca então é: os benefícios gerados pelo aumento do produto do setor sucroalcooleiro, que se traduz em aumento de renda - com efeito distributivo a outros segmentos da
economia, como se sabe -, podem ser maiores que os prejuízos causados por eventuais aumentos de preços de alimentos? Acreditamos que sim. Se, por um lado, pensamos que a expansão da atividade canavieira não irá acarretar problemas significativos de segurança alimentar no Brasil, por outro,
acreditamos que essa expansão deva ocorrer de forma a garantir a sustentabilidade da atividade, o que requer a adequação às normas sociais e às que tratam da preservação do ambiente.
Nesse contexto de expansão, é importante que os agentes envolvidos no processo produtivo, especialmente os fornecedores de cana, tenham em mente que alguma diversificação dentro da propriedade agrícola se faz necessária de forma a minimizar riscos. A expansão da oferta e da demanda nem sempre vai ocorrer de forma plenamente harmonizada de modo a assegurar, em todos os anos, preços compensadores.
(Mirian Rumenos Piedade Bacchi)