O aumento nos preços dos alimentos, que tem chamado a atenção da população em todo o mundo, é apenas a ponta de um iceberg que passou inadvertido por muito tempo. Os valores das commodities e suas implicações na alimentação emergiram nos noticiários após reclamações de organizações que combatem a fome em regiões pobres como a África. Segundo estas entidades, a elevação dos valores agrava a situação dos países que dependem de ajuda para alimentar suas populações. Além disso, as cotações atuais dos grãos restringem a capacidade de atendimento pelos orçamentos das ações humanitárias.
Um dos vilões desta potencial catástrofe seria o promissor mercado dos biocombustíveis, que mexe diretamente com a espinhosa questão das fronteiras agrícolas. De solução para o aquecimento global, a "energia verde" virou ameaça à alimentação. A discussão, no entanto, não é tão simples e as propostas das organizações humanitárias para atacar o problema, apesar de cheias de boas intenções, são ineficientes para reduzir os valores e combater a fome.
O principal erro está em tratar a questão de forma isolada, sem considerar o papel que os preços exercem nas economias modernas. Quando há uma elevação por conta do aumento de demanda, os preços atuam como um alerta para a escassez e convidam potenciais produtores a dirigir seus esforços para a produção deste bem.
No caso dos alimentos, o aumento de preços ocorreu principalmente por conta da evolução no consumo em países emergentes como China e Índia. No Brasil, a elevação da renda média dos trabalhadores - que aconteceu, entre outros motivos, também pelo crescimento induzido pelo aumento nos preços agrícolas - inseriu milhares de pobres no mercado de alimentos. Caso os preços fossem forçados a retornar aos níveis prevalecentes anteriormente, este processo de redução da pobreza no Brasil poderia
ser desacelerado.
Outro ponto importante é que, sem o estímulo dos preços mais altos, a produção de alimentos não se elevaria para atender ao enorme número de novos consumidores de alimentos. Se os preços não se alterarem, esta quantidade terá de ser alocada por outros meios (facilidade de entrega, condições de transporte, facilidades adicionais aos produtores, etc...). Diante desta lei de mercado, nada garante que a implementação de medidas para impedir o aumento dos preços assegure a destinação de alimentos com valores reduzidos aos países mais carentes.
Impedindo o papel dos preços, que é a de equilibrar a demanda com a quantidade ofertada, governos e entidades não serão capazes de produzir, em um passe de mágica, quantidades adicionais de alimentos para saciar a demanda crescente. A interferência apenas servirá para mudar a forma pela qual os preços subirão no médio prazo.
No calor da discussão, e na ânsia de encontrar uma solução rápida para a questão, há o alarde de um argumento sofisticado e que culpa o incentivo à produção e ao uso de biocombustíveis pela crise dos alimentos. Segundo esta versão, se os governos eliminarem as iniciativas de produção de biocombustíveis, áreas destinadas a estas plantações serão liberadas para a produção de alimentos, aumentando a oferta e reduzindo preços.
O problema, neste caso, é que a redução do programa de biocombustíveis também gera efeitos negativos sobre o preço dos alimentos. Vale lembrar que um dos elementos mais importantes na produção é a fixação de nitrogênio nas raízes das plantas. As lavouras dependem atualmente de elevadas quantidades de amoníaco e de muita energia. Eliminando os bicombustíveis como opção energética, os custos para a produção de alimentos seriam impactados, elevando novamente os preços.
A discussão sobre a produção de biocombustíveis também não é real para os países mais pobres como os da América do Sul e da África, onde o principal problema ainda é a baixa produtividade nas lavouras. Investimentos em tecnologia e melhores condições para cultivo em áreas subaproveitadas poderiam ampliar em larga escala a produção de alimentos, sem prejudicar o andamento dos projetos para a produção de bioenergia.
A crise serve para nos mostrar que existe uma excelente oportunidade de lidar com problemas importantes e que atingem populações em todo o mundo. O fantasma da escassez de alimentos, que atinge o estômago dos pobres e o bolso dos ricos, alerta para a necessidade de eliminar barreiras comerciais à entrada de alimentos nos principais mercados consumidores da União Européia e Estados Unidos. Com isto, os países mais pobres conseguirão ter acesso ao poder de compra para fazer frente aos preços maiores dos alimentos importados. Além disso, haverá mais investimentos nas lavouras destas regiões, trazendo mais competitividade.
Para fazer frente à concorrência do mercado internacional, os países mais pobres teriam também de tomar medidas domésticas como realizar melhorias na infra-estrutura de escoamento e reduzir o desperdício em todo o ciclo de produção, aumentando as exportações e regulando os preços com o melhor dos fatores: a adequação da oferta.
*Cláudio R. Lucinda é professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV)
Um dos vilões desta potencial catástrofe seria o promissor mercado dos biocombustíveis, que mexe diretamente com a espinhosa questão das fronteiras agrícolas. De solução para o aquecimento global, a "energia verde" virou ameaça à alimentação. A discussão, no entanto, não é tão simples e as propostas das organizações humanitárias para atacar o problema, apesar de cheias de boas intenções, são ineficientes para reduzir os valores e combater a fome.
O principal erro está em tratar a questão de forma isolada, sem considerar o papel que os preços exercem nas economias modernas. Quando há uma elevação por conta do aumento de demanda, os preços atuam como um alerta para a escassez e convidam potenciais produtores a dirigir seus esforços para a produção deste bem.
No caso dos alimentos, o aumento de preços ocorreu principalmente por conta da evolução no consumo em países emergentes como China e Índia. No Brasil, a elevação da renda média dos trabalhadores - que aconteceu, entre outros motivos, também pelo crescimento induzido pelo aumento nos preços agrícolas - inseriu milhares de pobres no mercado de alimentos. Caso os preços fossem forçados a retornar aos níveis prevalecentes anteriormente, este processo de redução da pobreza no Brasil poderia
ser desacelerado.
Outro ponto importante é que, sem o estímulo dos preços mais altos, a produção de alimentos não se elevaria para atender ao enorme número de novos consumidores de alimentos. Se os preços não se alterarem, esta quantidade terá de ser alocada por outros meios (facilidade de entrega, condições de transporte, facilidades adicionais aos produtores, etc...). Diante desta lei de mercado, nada garante que a implementação de medidas para impedir o aumento dos preços assegure a destinação de alimentos com valores reduzidos aos países mais carentes.
Impedindo o papel dos preços, que é a de equilibrar a demanda com a quantidade ofertada, governos e entidades não serão capazes de produzir, em um passe de mágica, quantidades adicionais de alimentos para saciar a demanda crescente. A interferência apenas servirá para mudar a forma pela qual os preços subirão no médio prazo.
No calor da discussão, e na ânsia de encontrar uma solução rápida para a questão, há o alarde de um argumento sofisticado e que culpa o incentivo à produção e ao uso de biocombustíveis pela crise dos alimentos. Segundo esta versão, se os governos eliminarem as iniciativas de produção de biocombustíveis, áreas destinadas a estas plantações serão liberadas para a produção de alimentos, aumentando a oferta e reduzindo preços.
O problema, neste caso, é que a redução do programa de biocombustíveis também gera efeitos negativos sobre o preço dos alimentos. Vale lembrar que um dos elementos mais importantes na produção é a fixação de nitrogênio nas raízes das plantas. As lavouras dependem atualmente de elevadas quantidades de amoníaco e de muita energia. Eliminando os bicombustíveis como opção energética, os custos para a produção de alimentos seriam impactados, elevando novamente os preços.
A discussão sobre a produção de biocombustíveis também não é real para os países mais pobres como os da América do Sul e da África, onde o principal problema ainda é a baixa produtividade nas lavouras. Investimentos em tecnologia e melhores condições para cultivo em áreas subaproveitadas poderiam ampliar em larga escala a produção de alimentos, sem prejudicar o andamento dos projetos para a produção de bioenergia.
A crise serve para nos mostrar que existe uma excelente oportunidade de lidar com problemas importantes e que atingem populações em todo o mundo. O fantasma da escassez de alimentos, que atinge o estômago dos pobres e o bolso dos ricos, alerta para a necessidade de eliminar barreiras comerciais à entrada de alimentos nos principais mercados consumidores da União Européia e Estados Unidos. Com isto, os países mais pobres conseguirão ter acesso ao poder de compra para fazer frente aos preços maiores dos alimentos importados. Além disso, haverá mais investimentos nas lavouras destas regiões, trazendo mais competitividade.
Para fazer frente à concorrência do mercado internacional, os países mais pobres teriam também de tomar medidas domésticas como realizar melhorias na infra-estrutura de escoamento e reduzir o desperdício em todo o ciclo de produção, aumentando as exportações e regulando os preços com o melhor dos fatores: a adequação da oferta.
*Cláudio R. Lucinda é professor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV)