terça-feira, 1 de julho de 2008

Primeiro semestre de 2008 não deve deixar saudades no mercado

Ainda bem que 2008 ainda não acabou. Foi apenas o primeiro semestre que terminou - ou
muitos investidores teriam festas de fim de ano nada agradáveis. Apreensão com a escalada mundial dos preços, temor de recessão nos Estados Unidos e desaquecimento global, sinalizações de aperto monetário pelos principais bancos centrais do planeta, problemas no setor financeiro norte-americano, disparada nos preços do petróleo para patamares recordes em termos reais e valorização expressiva de commodities. Não seria o melhor cenário para se encerrar um ano. Mas é esse o quadro que marcou o primeiro semestre de 2008, e que na verdade não passa do agravamento da crise que começou no segundo semestre de 2007, deflagrada pelo colapso no setor de hipotecas subprime nos EUA.

As comparações com períodos bastantes negativos tanto para os mercados como para as economias mundiais foram inevitáveis ao longo dos últimos meses. E a década mais citada é justamente a de 70.
Em 73, no primeiro choque do petróleo, a Opep triplicou o preço do barril, levando a economia
norte-americana à recessão. Os altos índices de inflação na época deterioraram ainda mais o ambiente, provocando uma estagflação - período de fraco ou nenhum crescimento e inflação com alta acima do normal. De 1972 a 1974, as ações perderam quase metade de seu valor, com petróleo e outras commodities saltando. Desta vez, contudo, a Opep não tem participação direta na forte valorização dos preços do óleo.

A commodity vem mostrando uma firme trajetória de elevação desde antes da Guerra do Iraque (2003).
Mais recentemente, desde o final do ano passado, a crise no setor de hipotecas nos EUA intensificou a tendência de alta, por causa de suas conseqüências no vigor do dólar. Investidores começaram a usar o petróleo, assim como as commodities metálicas, como ativo de proteção contra a inflação. Há ainda as questões geopolíticas e a parcela especulativa. Isso fez com que o óleo terminasse os primeiros seis meses de 2008 com uma valorização acumulada de 45,86%, a US$ 140 - considerando o contrato futuro mais líquido em Nova York (Nymex) - que atualmente é o de agosto. Na ICE Futures, de Londres, o contrato futuro mais negociado subiu 49% no período, a US$ 139,83 por barril (agosto).

Um dos suportes para a apreciação do petróleo, a debilidade do dólar, foi outro aspecto que ocupou os holofotes nestes últimos seis meses. A manutenção de indicadores fracos sobre a economia norte-americana - em grande parte justamente por causa do setor imobiliário - e uma política de afrouxamento monetário pelo Federal Reserve deram subsídios para o recuo da moeda perante divisas importantes como o euro e o iene. No caso do euro, ajudaram ainda as declarações duras do presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, em relação ao combate à inflação na região. De janeiro a junho, a valorização do euro perante o dólar chega a 7%. Ante o iene, o dólar caiu 5%.

A falta de vigor do dólar se verificou também no mercado cambial brasileiro, onde o ingresso de divisas mantém a moeda desvalorizada em relação ao real - contabilizando um declínio de 10,03% no balcão no primeiro semestre do ano, com a cotação - R$ 1,5970 - próxima dos níveis de janeiro de 1999. Os dados de fluxo cambial referendam a baixa do dólar, com superávit de US$ 16,703 bilhões até o dia 13 de junho. O setor comercial é o principal responsável, com entradas de US$ 27,9 bilhões, enquanto o financeiro está negativo em US$ 11,197 bilhões.

A moeda brasileira ainda contou a seu favor a elevação da classificação de risco do País para grau de investimento por duas das três agências de rating consideradas como as mais importantes pelo mercado financeiro - Standard & Poor's no dia 29 de abril e Fitch Ratings um mês depois. Mas nem isso impediu que o mercado brasileiro - à exceção do segmento cambial - sofresse com a deterioração externa.

E neste primeiro semestre, o segmento acionário mundial foi certamente um dos que mais sofreu. De acordo com reportagem do Financial Times, publicada nesta segunda-feira, inclusive, os mercados acionários globais sinalizavam a pior performance no primeiro semestre em 26 anos. Na sexta-feira, o índice de ações mundial MSCI havia caído 11,7% desde o começo do ano, o pior primeiro semestre desde o declínio de 13,8% nos primeiros seis meses de 1982. Em Wall Street, os principais indicadores acionários norte-americanos também não tiveram um primeiro semestre bom.

O Dow Jones acumulou uma perda de 14,44% - pior desempenho desde setembro de 2002 (-12,4%); e pior mês de junho desde 1930 (-17,7%), no início da grande Depressão. O S&P-500 recuou 21,83% - também pior mês desde setembro de 2002 (-11%) e o pior junho desde 1930 (-16,5%). O Nasdaq Composite declinou 13,55% - o pior desempenho desde janeiro deste ano (-9,9%) e pior junho desde 2002 (-9,4%). Além da fraqueza da economia combinada com a inflação elevada, as bolsas nos Estados Unidos ainda sofreram com o noticiário corporativo bastante pessimista no setor financeiro. Foram vários anúncios de baixas contábeis, balanços piores do que as estimativas, rebaixamentos de ratings, entre muitos outros eventos negativos.

Na Europa, o cenário não foi diferente. O FTSE-100 recuou 12,87%, o DAX perdeu 20,44% e o CAC-40 cedeu 21,67% no período. Na Ásia, o japonês Nikkei 225 recuou 11,93%. O Hank Seng, de Hong Kong, declinou 20,53%. Na China, o Shanghai Composite desvalorizou-se 48%.

Na Bovespa, após muita volatilidade e dois investment grade, os investidores estão se perguntando onde está a exuberância que foi sinônimo de Bolsa nos últimos cinco anos. De 2003 a 2007, o Ibovespa acumulou alta de 467%, mas, nos seis primeiros meses deste ano, amargava ganho de apenas 1,77%. E isso considerando que o País está no topo da lista de preferências dos especialistas em mercados emergentes: foi o mais citado entre os emergentes durante o 11º encontro anual da associação de operadores de mercados emergentes, realizado recentemente em Londres.

O Ibovespa, porém, foi um dos únicos cinco índices de ações a acumular alta desde o começo de 2008, dos 64 índices de ações acompanhados diariamente pela Dow Jones em 49 mercados de todo o mundo. Os outros índices que acumulam altas são o S&P/TSX, de Toronto (+4,58%), o Geral de Johanesburgo (+5,03%), o RTS de Moscou (+0,56%) e o KSE do Kuwait (+23,07%). Os que acumulam as maiores quedas são o VN, da Bolsa do Vietnã (-56,92%), e os índices de Bolsa de Xangai, na China (o Shanghai Composite e o Shanghai A, com uma queda de 48,02%).

E além da boa avaliação dos estrangeiros com o País, o pregão paulista encontrou suporte também na alta das commodities. Os carros-chefes do Ibovespa - Petrobras e Vale - são justamente ações atreladas ao movimento dos preços desses produtos, logo, são beneficiados. Mas se os insumos beneficiaram o real - por causa do impacto no comércio exterior - e os principais papéis da Bolsa paulista, foram determinantes para elevar as preocupações relacionadas à inflação no Brasil - mesmo que um pouco mais tarde do que se observou no exterior.

E isso foi notado no mercado de juros da BM&F. Desde o início do ano, as taxas dos DIs vêm mostrando aceleração, o que se acentuou à medida em que o petróleo renovava máximas históricas e os preços de alimentos não davam sinais de alívio. O término da fase de manutenção da Selic e início do ciclo de alta reforçaram a inclinação da curva futura. O volume mais reduzido nas operações corrobora o quadro de prudência visto ao longo dos seis primeiros meses do ano. E o comportamento das taxas dos DIs mais negociados também: janeiro/09 passou de 12,08 em 28 de dezembro de 2007 para 13,38% ontem. Janeiro/10, de 12,82%, a 15,14%. (Paula Laier e Equipe AE)