Por: Ivo Chermont
Na última recessão americana em 2001, o S&P500 caiu 16%, enquanto a Ibovespa teve perdas de 21% no mesmo período. Na atual crise financeira, desde agosto, a bolsa americana já perdeu 10% de valor, enquanto que a Ibovespa subiu 30%. O que explica essa diferença de comportamento no mercado de ações? A resposta começa com as diferentes reações das commodites nas duas crises.
A economia mundial no começo desta década contava com apenas uma locomotiva, os EUA. Uma vez em recessão, a demanda global reagia negativamente de forma automática, empurrando os preços de todas as commodities para baixo. O petróleo, por exemplo, atingiu US$ 16 no auge da última recessão americana, em novembro de 2001.
Sete anos depois, o crescimento é mais diversificado, os emergentes crescem a taxas robustas e, principalmente, a China passou a ser um diferencial relevante, dada a transição demográfica e econômica, com a substituição da agricultura pela indústria e os serviços.
Essa combinação tem sustentado o preço das commodities mesmo em um cenário de desaquecimento da economia americana. Como já mencionei em artigos anteriores, não acredito na tese do decoupling, ou seja, de que as economias emergentes conseguirão sustentar um crescimento, a despeito de uma eventual recessão americana.
Mas é inegável que hoje a China desempenha uma sustentação aos preços dos produtos básicos, em um cenário de forte investimento em infra-estrutura e aumento da renda per capita e, conseqüentemente, do incremento do consumo de alimentos.
O índice Bovespa se beneficia pela sua composição, concentrada de forma importante por ações de empresas ligadas ao ciclo de commodities, como Petrobras, Vale do Rio Doce, Aracruz e Cosan. O setor de mineração, por exemplo, responde por 17% do índice, enquanto o segmento de petróleo e gás abrange outros 16%.
Em resumo, um terço da bolsa tende a variar positivamente quando petróleo e minério de ferro ganham valor. Na atual conjuntura, as economias desenvolvidas desaquecem, as commodities se mantêm pujantes e as empresas brasileiras, beneficiadas pelo ciclo de commodities, parecem apresentar um cenário de crescimento sustentável.
Assim, concluímos que o Ibovespa não está imune à crise americana apenas pelo aquecimento da demanda local ou pela blindagem externa conquistada nos últimos anos. O principal índice de bolsa no Brasil está, por enquanto, se descolando da bolsa americana por força de sua composição concentrada em papéis de empresas ligadas a commodities.
As cotações desses produtos têm sido arrastadas pela demanda chinesa, do desequilíbrio entre demanda e oferta em diversos mercados, por mudanças demográficas no leste asiático, e até por razões especulativas. Resta saber até quando os ciclos de commodities perdurarão.
Será um movimento temporário, que reagirá em algum momento ao desaquecimento da economia americana, ou um movimento permanente, motivado por fatores sem precedentes? Esta pergunta vale bilhões e só o tempo conseguirá respondê-la com precisão.
Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br
Na última recessão americana em 2001, o S&P500 caiu 16%, enquanto a Ibovespa teve perdas de 21% no mesmo período. Na atual crise financeira, desde agosto, a bolsa americana já perdeu 10% de valor, enquanto que a Ibovespa subiu 30%. O que explica essa diferença de comportamento no mercado de ações? A resposta começa com as diferentes reações das commodites nas duas crises.
A economia mundial no começo desta década contava com apenas uma locomotiva, os EUA. Uma vez em recessão, a demanda global reagia negativamente de forma automática, empurrando os preços de todas as commodities para baixo. O petróleo, por exemplo, atingiu US$ 16 no auge da última recessão americana, em novembro de 2001.
Sete anos depois, o crescimento é mais diversificado, os emergentes crescem a taxas robustas e, principalmente, a China passou a ser um diferencial relevante, dada a transição demográfica e econômica, com a substituição da agricultura pela indústria e os serviços.
Essa combinação tem sustentado o preço das commodities mesmo em um cenário de desaquecimento da economia americana. Como já mencionei em artigos anteriores, não acredito na tese do decoupling, ou seja, de que as economias emergentes conseguirão sustentar um crescimento, a despeito de uma eventual recessão americana.
Mas é inegável que hoje a China desempenha uma sustentação aos preços dos produtos básicos, em um cenário de forte investimento em infra-estrutura e aumento da renda per capita e, conseqüentemente, do incremento do consumo de alimentos.
O índice Bovespa se beneficia pela sua composição, concentrada de forma importante por ações de empresas ligadas ao ciclo de commodities, como Petrobras, Vale do Rio Doce, Aracruz e Cosan. O setor de mineração, por exemplo, responde por 17% do índice, enquanto o segmento de petróleo e gás abrange outros 16%.
Em resumo, um terço da bolsa tende a variar positivamente quando petróleo e minério de ferro ganham valor. Na atual conjuntura, as economias desenvolvidas desaquecem, as commodities se mantêm pujantes e as empresas brasileiras, beneficiadas pelo ciclo de commodities, parecem apresentar um cenário de crescimento sustentável.
Assim, concluímos que o Ibovespa não está imune à crise americana apenas pelo aquecimento da demanda local ou pela blindagem externa conquistada nos últimos anos. O principal índice de bolsa no Brasil está, por enquanto, se descolando da bolsa americana por força de sua composição concentrada em papéis de empresas ligadas a commodities.
As cotações desses produtos têm sido arrastadas pela demanda chinesa, do desequilíbrio entre demanda e oferta em diversos mercados, por mudanças demográficas no leste asiático, e até por razões especulativas. Resta saber até quando os ciclos de commodities perdurarão.
Será um movimento temporário, que reagirá em algum momento ao desaquecimento da economia americana, ou um movimento permanente, motivado por fatores sem precedentes? Esta pergunta vale bilhões e só o tempo conseguirá respondê-la com precisão.
Ivo Chermont é economista da Modal Asset Management e escreve mensalmente na InfoMoney, às terças-feiras.
ivo.chermont@infomoney.com.br