segunda-feira, 14 de abril de 2008

Behavior Finance

Você já deve ter percebido que nem tudo no mercado financeiro segue um padrão estritamente lógico e racional. Afinal como explicar que o Índice Bovespa possa cair mais de 5% em um dia para recuperar tudo no dia seguinte? Para tentar explicar parte desse comportamento esquizofrênico dos mercados, neste mês vou abordar um assunto um pouco diferente, porém interessante e atual, chamado de behavioral finance, ou finanças comportamentais. Behavioral finance é um campo relativamente novo, que procura combinar análise do comportamento humano e teorias psicológicas com teorias econômicas convencionais para explicar melhor por que as pessoas muitas vezes tomam decisões financeiras de forma irracional.

Como o assunto é amplo, vou dividir a tarefa em duas etapas. Neste mês, vou falar da definição de behavioral finance e da chamada teoria do prospecto. No próximo mês, vou descrever os principais equívocos psicológicos que costumam acontecer nos processos de julgamento dos investidores.

Antes de falar em behavioral finance, é necessário lembrar rapidamente as teorias de finanças convencionais comumente aceitas, que podem ser resumidas na Hipotése dos Mercados Eficientes (HME). A HME fundamenta-se em duas construções: a teoria da utilidade esperada e as expectativas racionais. Estas duas proposições combinadas afirmam que os indivíduos são perfeitamente racionais, conhecem e ordenam de forma lógica suas preferências, buscam maximizar a “utilidade” (ou seja, o benefício próprio) de suas escolhas e conseguem atribuir com precisão probabilidades aos eventos futuros quando submetidos a escolhas que envolvam incertezas. No modelo dos mercados eficientes, assume-se que as informações relevantes sobre os ativos são percebidas e processadas simultaneamente pelos investidores. Como estes são perfeitamentes racionais, suas decisões serão lógicas. Assim, os preços de mercado deverão refletir com exatidão o valor fundamental dos ativos, incorporando a cada momento do tempo as melhores estimativas de valor destes bens.

Por outro lado, entre os modelos onde os indivíduos apresentam racionalidade limitada, o mais promissor é a chamada Teoria do Prospecto, formulada pelos psicólogos Daniel Kahneman, Prêmio Nobel de Economia em 2002, e Amos Tversky, considerados os pioneiros da linha de pesquisa conhecida como behavioral finance. O aspecto central deste modelo descritivo é a constatação de que indivíduos atribuem maior importância às perdas do que aos ganhos.

Kahneman and Tversky conduziram uma série de estudos na qual os participantes faziam julgamentos entre decisões monetárias e potencial risco e ganhos. Em um destes experimentos, os participantes recebiam hipotéticos $1.000 (este valor correspondia a 1/3 da renda média do grupo social dos entrevistados). Sabendo disto, deveriam escolher uma das seguintes alternativas:

• Receber $500 certos
• 50% de chance de ganhar mais $1.000 e 50% de não ganhar nada
A grande maioria dos entrevistados (84%) escolheu ficar com os $500 certos e evitar o risco de não ganhar nada na tentativa de ganhar mais. Numa outra situação, é colocado que os participantes ganhariam, de presente, $2.000 e agora deveriam escolher uma das seguintes alternativas:
• Perder $500 inevitavelmente
• 50% de chance de perder $1.000 e 50% de não perder nada.

Aqui, a maioria dos entrevistados (69%) prefere correr o risco de perder mais, na esperança, obviamente, de não perder nada.

Conclusão: os dois experimentos são muito semelhantes, mas os resultados são opostos. Na teoria, os resultados deveriam ser parecidos, mas, na prática, quando se trata de ganhar, nossa aversão ao risco é muito maior do que quando se trata de perder. Estamos dispostos a sacrifícios maiores para tentar evitar uma perda. Para não perder, estamos até prontos a correr o risco de perder mais ainda.

Em um artigo escrito para o Valor Econômico, Martin Casals Iglesias cita que foi ao laborátorio de economia experimental da Fundação Getúlio Vargas. Seguiu à risca todo o procedimento feito por Kahneman e aplicou a um grupo de participantes exatamente as mesmas perguntas feitas em um outro experimento de 1992 realizado nos EUA. Foi solicitado aos estudantes que optassem entre participar de 64 jogos, nos quais os ganhos (ou perdas) dependiam de probabilidades, ou receber (ou pagar) um valor fixo e desistir de jogar. Todas as perguntas seguiram o seguinte modelo: "Suponha um jogo no qual você tem 90% de chance de ganhar zero e 10% de chance de ganhar R$ 50,00". Os participantes então deviam escolher o valor fixo a ser recebido, pelo qual desistiriam do jogo. Variavam, de uma pergunta para outra, o valor, as probabilidades e se o jogo se referia a chances de ganhos, de perdas ou a uma combinação de ambas. Os resultados do experimento foram surpreendentemente parecidos aos encontrados nos EUA, a começar pelo coeficiente de aversão a perdas que foi estimado em 2,21 para o Brasil, contra os 2,25 dos Estados Unidos, ou seja, a perda de uma unidade monetária gera desgosto que só pode ser compensado pelo ganho de 2,21 unidades para o Brasil e 2,25 para os EUA.

Como você pode ver, o ser humano é muito menos racional do que nos faz crer as teorias tradicionais de finanças. E isso traz algumas implicações para o mundo dos investimentos.

Por Andre Delben Silva, responsável pela gestão na Advisor Asset Management