Desejado e esperado por todos do mercado financeiro, finalmente o Brasil tem o “Investment Grade”, mas o que isso significa para a economia nacional? O economista do Bradesco, Octávio de Barros, explica o que é essa classificação e o que representa ao país e para o investidor.
Depois de muitas expectativas, e anos de espera, o Brasil recebeu no último dia do mês de abril, às vésperas de um feriadão, a classificação de país seguro para se investir. A notícia balançou o mercado acionário e as conseqüências foram novos recordes do Ibovespa que passou dos 70 mil pontos poucos dias depois. O chamado “grau de investimento” refere-se à escala de classificação de risco das agências de rating. A partir de determinada "nota" ou "grau", o devedor é considerado como possuindo baixo risco de não pagamento, sendo denominado grau de investimento.
O economista, Octávio de Barros, diretor de Pesquisa e Estudos Macroeconômicos do Bradesco, explica que a classificação dos países em geral refere-se à dívida externa em moeda estrangeira. “Uma nota dentro da faixa de grau de investimento representa uma avaliação de uma agência independente de que o país (ou, mais geralmente, o emissor de uma dívida) tem boas condições financeiras, ou seja, é uma economia com bons fundamentos”.
De acordo com Barros, a importância de se obter o grau de investimento é que isso melhora a percepção de risco em relação aos ativos (reais e financeiros) do país junto aos investidores (empresas, fundos de investimento e outros), reduzindo o custo de captação de empréstimos e elevando a disposição para se investir no país.
A classificação é feita pelas agências de rating, as principais são: S&P, a Moody s e Fitch, que seguem critérios internos que apresentam algumas diferenças entre si. De forma geral, o fator para receber a classificação de grau de investimento é possuir capacidade de pagamento compatível com a dívida do país.
Barros afirma ainda que um baixo nível de endividamento, estabilidade da economia, estabilidade política, boas perspectivas de crescimento e boa gestão da política econômica são todos os componentes dos critérios de classificação das agências.
De acordo com a Standard & Poor s, agência que classificou o Brasil, o país antes era tido como BB+ e depois foi elevado a BBB-, o primeiro “grau de investimento” da S&P. “Podemos entender isso como um incremento em uma escala de notas não linear: a elevação da nota entre "não-grau de investimento" para "grau de investimento" é uma mudança mais importante do que subir uma nota dentro das respectivas regiões”, explica o economista.
Novos rumos
Após essa ascensão do Brasil muitas mudanças são esperadas, mas Barros afirma que boa parte delas já se manifestaram nos últimos anos (principalmente em 2007) pela antecipação de que o país estava no rumo para receber o grau de investimento.
Octávio de Barros expõe que se for comparada à experiência de outros países emergentes, que se tornaram grau de investimento, os principais efeitos, é sobre a disponibilidade de recursos para investimento estrangeiro (aumentam os fluxos de investimentos estrangeiro direto e para a compra de ações). Além disso, a queda do custo de emissão de dívida por parte do setor público, empresas e instituições financeiras do país também acontece. Portanto, há um impulso adicional sobre o investimento e um reforço da tendência de queda das taxas de juros pagas na dívida externa e interna no médio prazo.
Já para o investidor individual, assim como para os demais, a melhora da avaliação do país por parte da agência de rating tem significado próprio, uma vez que implica que está tendo a opinião de uma instituição independente que considera o Brasil um bom país para se investir.
Barros diz ainda que a segunda mudança com o grau de investimento é a elevação dos preços dos ativos e redução da volatilidade dos mercados. “Contudo, boa parte dos efeitos do grau de investimento já estavam incorporadas aos preços dos ativos”, revela. “Também podemos vislumbrar que o grau de investimento reforça o caminho de uma maior diversificação e oferta de perfis de fundos de investimento e instrumentos financeiros à disposição dos investidores individuais”.
O economista ressalta que naturalmente, os investidores realizam suas próprias avaliações de risco. “A relevância da nota atribuída pelas agências depende da reputação das agências junto aos investidores: é necessário que elas sejam independentes e competentes (no sentido de possuírem um bom histórico de avaliação dos devedores)”.
“O grau de exigência para se conquistar o grau de investimento é maior do que uma simples mudança de nota fora da região de grau de investimento”, conclui Octávio de Barros.