sábado, 7 de junho de 2008

Preços altos começam a afetar o apetite mundial por petróleo

Carola Hoyos

Enquanto caminhoneiros protestam contra os elevados preços dos combustíveis,
os políticos buscam bodes expiatórios entre os especuladores e governos
asiáticos abandonam os caros subsídios aos combustíveis, acumulam-se os
indícios de que está em andamento uma mudança dramática da demanda por
petróleo.

Os Estados Unidos, por exemplo, dão sinais de que finalmente começam a
abordar o problema representado pelo vício em petróleo. Nesta semana, a
General Motors, a maior fabricante de automóveis dos Estados Unidos,
anunciou que cogita livrar-se da divisão que fabrica os seus veículos
Hummer. O fato de o Hummer, o mais avantajado dos veículos fora de estrada,
estar perdendo o charme - no ano em que o Smart, o minúsculo carro suíço
para duas pessoas, aparece nas exposições de automóveis norte-americanas,
após ter rodado durante anos pelas estreitas ruas das capitais européias -
foi observado com atenção por economistas que acompanham a demanda por
petróleo na Agência Internacional de Energia
(AIE) em Paris.

Eduardo Lopez, analista desta instituição intergovernamental do setor
energético formada por países desenvolvidos, enxerga indícios de uma mudança
estrutural que melhora vagarosamente a eficiência da frota norte-americana
de automóveis. "As pessoas podem ignorar os preços mais altos enquanto
estiverem ficando mais ricas, mas de repente a maré mudou. O norte-americano
médio tem que enfrentar os altos preços do petróleo e os problemas de renda
[um em cada dez mutuários luta desesperadamente para pagar as hipotecas,
segundo a agência do setor, Mortgage Banker's Association], e em muitos
casos ele vê-se em uma arapuca, dirigindo uma monstruosidade sobre rodas que
devora a metade do seu salário mensal apenas para transportá-lo até um pouco
além da esquina", diz Lopez.

A AIE e outras instituições que também fazem previsões para o setor vêm
coletando indícios de uma queda da demanda, bem como números anômalos
referentes ao crescimento econômico, à inflação e à quilometragem percorrida
pelos motoristas (que, no último mês de março, nos Estados Unidos, caiu pela
primeira vez desde 1979).

Agora essas tendências refletem-se nas previsões sobre a demanda. No mês
passado, o Departamento de Energia dos Estados Unidos reduziu a magnitude
das previsões sobre a demanda norte-americana, anunciando que esta cairia
mais do que o dobro do que anteriormente se previa. Levando em conta a
projetada adoção do etanol no país, acredita-se que a demanda por petróleo
nos Estados Unidos neste ano diminua em 330 mil barris diários. Em 2007, os
norte-americanos utilizaram 20,7 milhões de barris diários, o que
correspondeu a um quarto da demanda mundial.

Outros argumentam que está em jogo um significante elemento especulativo.
George Soros, o investidor bilionário, disse nesta semana a um comitê do
Congresso dos Estados Unidos que os investimentos em mercados futuros estão
exagerando a alta dos preços e criando uma bolha de mercado para o petróleo
e outras commodities.

Resta agora saber se o preço do petróleo acabará caindo do patamar de US$
135 o barril, à medida que o maior consumidor do mundo optar por menos
viagens, carros menores e o etanol, ou se as preocupações quanto ao
fornecimento continuarão predominando enquanto a China e o Oriente Médio
compensam o declínio da demanda nos Estados Unidos e em outros países
desenvolvidos.

Recentemente o mercado começou a girar exatamente em torno dessa questão.
Nos últimos 12 meses a crença dominante foi de que a oferta lutava para
acompanhar a demanda. Poucos negociantes focalizavam-se no risco de que a
erosão da demanda estivesse finalmente pronta a surgir no cenário, após uma
década durante a qual os preços subiram mais de 100%.

Mas, nesta semana, a preocupação quanto à demanda gerou alterações
momentâneas no mercado do petróleo, à medida que a tendência presenciada nos
Estados Unidos conjugava-se a notícias de que a demanda em alguns países
asiáticos em desenvolvimento poderia cair devido à redução governamental aos
vultuosos subsídios.

Acredita-se que crescimento da demanda mundial por petróleo neste ano, que
deverá ser de aproximadamente um milhão de barris diários, ocorra em países
que utilizaram os subsídios para proteger os seus cidadãos dos recentes
aumentos desta commodity. Metade da população mundial beneficia-se dos
combustíveis subsidiados, embora esta distorção torne-se menos dramática
caso se leve em conta o fato de que os combustíveis que estas pessoas
compram por um preço reduzido representam apenas um quarto do consumo
mundial.

Nas diversas regiões do mundo, os motoristas pagam valores bastante
diferentes pelo petróleo e outros combustíveis. Os postos dos Estados Unidos
- freqüentemente usados como padrão porque neles os preços não são
fortemente taxados nem subsidiados - cobram US$ 1 pelo litro da gasolina. Na
China este valor é de 64 centavos de dólar, na Arábia Saudita 12 centavos e
na Venezuela cinco centavos.

Mas, para certos governos, o fardo econômico representado pela contenção dos
custos dos combustíveis, e, portanto, também da inflação, está tornando-se
demasiadamente pesado. Deparando-se com déficits orçamentários cada vez
maiores e com refinarias estatais deficientes, a Índia, a Malásia e Taiwan
começaram nas últimas semanas a reduzir os seus subsídios, apesar das
ameaças de um prejuízo político e, em alguns casos, de violentos protestos
de rua. A decisão desses países funciona, em tese, como um freio aplicado
sobre a demanda, já que os consumidores recuam ante os novos preços mais
elevados nas bombas de gasolina.

Isto é importante tanto no curto quanto no longo prazo, especialmente em
economias emergentes que atualmente estão decidindo se construirão estradas,
ferrovias e serviços eficientes de ônibus públicos, em um período no qual os
seus cidadãos migram do campo para os centros urbanos.

"Se você examinar as cidades norte-americanas, perceberá que elas foram
projetadas para os automóveis particulares das décadas de quarenta,
cinqüenta e sessenta. É muito importante enviar um sinal às economias
emergentes de que a energia é um recurso escasso, acabando com os subsídios
ou taxando os combustíveis", afirma Armin Wagner, funcionário da GTZ, a
agência governamental alemã de desenvolvimento, e um dos autores de um
estudo anual sobre os preços internacionais dos combustíveis em mais de 170
países.

Mas mesmo que alguns países asiáticos estejam cortando subsídios, a demanda
norte-americana esteja em queda, a demanda européia permaneça estabilizada e
os países mais pobres do mundo esforcem-se para pagar a dívida da importação
de combustíveis, a desaceleração do crescimento da demanda mundial pode ser
anulado pelo boom econômico na China e no Oriente Médio. De fato, o preço do
petróleo disparou novamente na sexta-feira (06/06), enquanto os temores
quanto à oferta do produto e um dólar mais fraco afastavam as preocupações
relativas à demanda e provocavam um frenesi de compra.

A China - cuja demanda por petróleo deve crescer de 5% a 10%, alimentada em
parte pelos preparativos para as Olimpíadas - impõe um teto para o preço dos
combustíveis. Faz mais de um ano que o governo chinês recusa-se a elevar
este teto, provocando, desta forma, grandes prejuízos para as refinarias
estatais e fazendo com que as refinarias menores desapareçam, à medida que
os preços sobem. Isso causou uma escassez de combustíveis. Porém, poucos
analistas esperam que Pequim corte os subsídios antes que seja capaz de
controlar a inflação. E mesmo se a China tomar medidas para reduzir o
desperdício e a escassez provocados pelos preços artificialmente baixos, a
demanda por petróleo no curto prazo crescerá - o que seria exatamente o
oposto do esperado.

"A demanda reprimida na China é significativa. O que se vê lá não é uma
classe média que ficaria destituída caso os preços dos combustíveis
subissem", diz Lopez. "Na verdade, a elevação dos preços na China poderia
gerar um aumento das importações de petróleo, à medida que as grandes
refinarias intensificassem as suas operações de processamento e as pequenas
voltassem a funcionar para abastecer as regiões rurais de óleo combustível".

Mas a China não é o único país que resiste aos apelos do Fundo Monetário
Internacional, do Banco de Desenvolvimento Asiático e da AIE para cortar
subsídios. Os maiores culpados pelo desperdício de petróleo são os países
exportadores. A entrada volumosa de petrodólares no Oriente Médio fez com
que fossem adquiridas quantidades cada vez maiores de carros de luxo e
aparelhos de ar condicionado pelos países da região, fazendo com que neles o
consumo de petróleo per capita aumentasse até se igualar ao dos Estados
Unidos. No entanto, em termos de produto interno bruto, a região produz
apenas um sexto da quantidade norte-americana por barril de petróleo, o que
evidencia a magnitude do desperdício.

Com planos ambiciosos para a construção de unidades petroquímicas e
refinarias, apesar da carência de gás natural necessário para alimentar
estes projetos, a demanda por derivados de petróleo na região deverá
crescer.

Mesmo que as projeções relativas à demanda no Oriente Médio revelarem-se
incorretas, ou se a demanda chinesa cair - algo que, segundo certos
analistas, acontecerá depois que o país deixar de estocar combustível em
preparação para as Olimpíadas - , será preciso sempre levar em consideração
o lado da oferta. A AIE já advertiu que provavelmente reduzirá os números da
sua previsão de crescimento da demanda fora do cartel da Organização dos
Países Exportadores de Petróleo (Opep).

Antigos campos de petróleo, como o de Cantarell, no México, estão secando
mais rapidamente do que se pensava, e a Rússia, o segundo maior produtor de
petróleo do mundo, procura investimentos, e a sua produção encontra-se
estagnada enquanto o Kremlin consolida o seu poder sobre a indústria de
energia. Enquanto isso, a Arábia Saudita demonstra a sua disposição
implacável de segurar os seus barris de petróleo quando a oferta mundial
diminui, independentemente do preço do produto.

Até mesmo George Soros observou no seu depoimento na semana passada: "Na
verdade, um colapso no mercado petrolífero não é iminente. O perigo atual
vem de outra direção. O aumento dos preços do petróleo agrava a perspectiva
de uma recessão. Somente quando uma recessão estiver bem consolidada será
provável que um declínio do consumo no mundo desenvolvido anule outros
fatores".