segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Agressivo na alta, conservador na baixa

Por Angelo Pavini

Não conhecer o próprio apetite por risco pode ser fatal para o investidor na hora de escolher uma aplicação. Assim como muitos tentam se enganar comprando roupas um número menor achando que vão emagrecer em breve, a maioria dos investidores acaba assumindo riscos maiores do que é capaz de suportar diante da ambição de ganhar mais e rapidamente. O resultado aparece em momentos como o atual, de queda na bolsa, em que muitos acabam se desesperando e vendendo na pior hora.

Pesquisa feita pelo professor Domingos Rodrigues Pandeló Junior, do Ibmec-SP, revela claramente esse descompasso entre a vontade de ganhar mais e a capacidade de suportar perdas dos investidores. No total, 180 clientes dos bancos Bradesco, Unibanco, ABN Real, Banco do Brasil e Itaú, selecionados de forma aleatória, responderam questionários sobre seus hábitos de investimento. Destes, 165 foram considerados no trabalho. A maioria, 67%, tinha entre 26 e 41 anos e 30% acima de 40 anos.

A pesquisa tentou identificar se o perfil definido pelo cliente, se a sua maneira de encarar o risco era condizente com as respostas dadas pelo questionário. "Por exemplo, um cliente que se diz agressivo deve ser bastante racional, dedicar mais tempo à análise dos seus investimentos, entre outros aspectos", diz Pandeló.

Como esperado, a maioria dos entrevistados se classificou como tendo um perfil moderado, com 64% das respostas. Outros 30% se disseram conservadores e apenas 6% agressivos. Do total, 52% também de declararam totalmente racionais em seus investimentos e 39% parcialmente racionais. Tudo certo, tudo muito bem.

O problema aparece quando a pergunta se refere à expectativa do valor da carteira daqui a um ano. Do total, 33% disseram esperar um valor significativamente superior. Um percentual muito maior do que o de investidores agressivos. Os que esperam manter o valor da carteira, por sua vez, são apenas 16%, muito menos que os 30% que se declararam conservadores. "Ou seja: alguns investidores desejam ser conservadores na ora de tomar riscos, mas esperam taxas de retornos altas, que seriam oferecidas aos mais agressivos", diz Pandeló.

Os testes mostram que há também incoerência com relação à racionalidade do investidor. Quando perguntados onde jogariam R$ 10,00, 61% preferiram apostar na Mega-Sena, 33% num cara ou coroa e 6% na raspadinha. "Pode-se verificar que 33% dos pesquisados apresentam maior racionalidade, enquanto 67% agem mais pela emoção", avalia Pandeló, lembrando que as possibilidades de acertar no cara ou coroa são muito maiores do que na Mega-Sena ou na raspadinha. "Apostar na Mega-Sena acumulada pode parecer mais tentador do que num cara ou coroa, mas dadas as probabilidades, seguramente o cara ou coroa tende a ser, na média, mais racional, mais lucrativo (exceto para o bilhete premiado)", afirma.

Outro teste importante para desmascarar os pseudo-agressivos é o da aversão a risco. Na pesquisa, foram dadas duas opções para que fosse escolhida a menos pior: entrar em uma operação em que a probabilidade de perder R$ 100 mil era de 80% ou em uma em que perderia com certeza R$ 50 mil. A maioria dos entrevistados, 76%, preferiu arriscar perder mais a assumir uma perda certa menor. "O teste serve para identificar a racionalidade do investidor e para confirmar uma hipótese de que os investidores têm, em geral, um sentimento bastante forte de aversão à perda", diz Pandeló.

Por conta disso, muitos acabam tomando decisões pouco racionais e perdem mais do que deveriam. "No exemplo, 76% escolheram a pior alternativa, a menos racional, pois ela leva a uma perda média de R$ 80 mil, enquanto a alternativa leva a uma perda de R$ 50 mil", explica Pandeló, acrescentando que um investidor mais racional, deveria ter feito a escolha "certa", de perder menos.

A falta de racionalidade foi confirmada também pelo teste de aceitação de ganhos, diz Pandeló. Nele, o investidor escolhia entre entrar numa operação onde a probabilidade de ganhar R$ 200 mil seria de 50% ou em uma onde haveria um ganho garantido de R$ 50 mil. Do total, 79% optaram por ganhar menos, R$ 50 mil, a tentar sair com R$ 200 mil no bolso diante da chance de não ganhar nada. "Em geral, os investidores preferem o ganho 'certo', ainda que não seja a opção mais racional, pois na opção escolhida pela maioria o investidor teria um ganho de R$ 50 mil, em vez de R$ 100 mil", avalia.

O limite de perdas suportável também não coincide com o número de investidores agressivos. Do total, 27% não suportariam perda alguma e sairiam da aplicação - percentual elevado levando-se em conta que apenas 6% dos investidores se diziam agressivos. Outros 52%, a maioria, aceitariam perder até 10%. O ponto positivo é que 21% aguentariam ter até 30% de prejuízo. "Uma perda dessas pode ser considerada uma posição agressiva", diz Pandeló. Mas ele observa que a reação nem sempre se confirma na prática. "Quando o investidor está sentindo no bolso a perda, ele reage mais emocionalmente", diz.

Para Pandeló, o investidor tem uma aversão grande a perda e ao mesmo tempo capacidade grande de aceitar ganhos menores. E, com isso, perde mais do que deveria e acaba ganhando menos do que poderia, porque prefere o ganho certo, apesar de menor.

O tempo dispensado pelos investidores para cuidar do próprio dinheiro também é pequeno. Segundo a pesquisa, 88% dizem dedicar no máximo 5 horas por semana (ou uma hora por dia) aos investimentos e 12% entre 5 e 10 horas por semana. O ideal, diz, seriam no mínimo duas horas por dia. "Pelas respostas, nenhum investidor teria efetivamente perfil agressivo", diz o professor, acrescentando que a baixa dedicação ao acompanhamento das aplicações deve ser vista com preocupação. Pelo perfil das respostas, a maioria teria perfil mais conservador.

"É engraçado que o investidor pensa que é agressivo, quer ganhar mais, mas se o mercado vira, se tiver algum problema, ele vira conservador", diz Pandeló. E isso cria um problema sério para os gestores de fundos, que são surpreendidos por resgates antes do esperado e têm de desmontar as aplicações de médio prazo que construíram ou vender papéis na baixa.

A pesquisa mostrou algumas mudanças para melhor no perfil do investidor. Há mais pessoas investindo com um horizonte de longo prazo - 46% dizem aplicar por um a cinco anos e 30% mais de cinco anos - o que, segundo Pandeló, reflete a maior estabilidade da economia brasileira, que permite ao investidor se programar e fazer planos de longo prazo.