quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Bolsa de valores em baixa, propensão ao risco em alta

Por: Jurandir Sell Macedo Jr

Você aceitaria disputar um jogo de cara ou coroa se para um lado da moeda você tivesse que pagar R$ 1 mil e, caindo o outro lado para cima, você recebesse os mesmos R$ 1 mil? Segundo a TUE (Teoria da Utilidade Esperada), base da Economia Neoclássica, a maioria das pessoas racionais não aceitaria apostar neste jogo.

Talvez você aceite participar de uma disputa justa, com possibilidades de ganhos e perdas idênticas e envolvendo valores baixos, apenas pelo divertimento de jogar. Mas deverá se tornar mais avesso a este jogo à medida que sobe o valor da aposta. Pode ser que você aceite jogar cara ou coroa com prêmio de R$ 1, mas dificilmente toparia participar se estivesse em jogo o equivalente a um ano de sua renda.

A idéia básica da TUE é que o risco não é vantajoso. Sendo assim, um agente econômico racional só aceita o risco se for remunerado. Segundo a TUE, as pessoas têm diferentes níveis de aversão ao risco. Algumas talvez aceitem uma aposta em que a cara da moeda signifique ganho de R$ 1.100 e a coroa represente perda de R$ 1 mil. Já outras, mais avessas ao risco, podem exigir prêmio muito maior para aceitar entrar em um jogo assim.

A TUE foi contestada pela Teoria do Prospecto, desenvolvida por Daniel Kahneman e Amos Tversky. A Teoria do Prospecto concorda que somos avessos ao risco no campo dos ganhos, mas afirma que nos tornamos propensos ao risco quando estamos perdendo. Após sofrer um prejuízo inicial, as pessoas em geral aceitam propostas desvantajosas para tentar recuperar o que perderam. Na Teoria do Prospecto, a aversão ao risco no campo dos ganhos, combinada com a procura pelo risco no campo das perdas, é chamada de efeito reflexo.

Voltando ao exemplo do jogo de cara ao coroa, se uma pessoa aceitar participar de um jogo e perder R$ 1 mil, é possível que aceite participar de um segundo jogo para tentar zerar a perda, ainda que se arrisque a aumentar o prejuízo. Com a recente queda das cotações da Bovespa, muitos investidores estão operando no campo das perdas. Com isso, tornam-se afeitos ao risco, mesmo quando estão em desvantagem.

Operações a termo e operações de conta margem possibilitam multiplicar o risco das carteiras de ações. Infelizmente, estas operações complexas algumas vezes são feitas por pessoas que não possuem o devido preparo para tanto.

Já afirmei em outros artigos nesta coluna que investidores que operaram por muito tempo em mercados com tendência de alta podem se tornar excessivamente otimistas. Investidores muito otimistas costumam supervalorizar a própria capacidade de operar no mercado. Podem pensar que é impossível que algumas ações caiam ainda mais e, assim, correm sérios riscos de destruir todo o patrimônio que possuem.

Se você está pensando em alavancar sua carteira na esperança de se livrar logo de um prejuízo, saiba que está sofrendo uma poderosa e prejudicial tendência comportamental. Tome cuidado, lembre-se que a bolsa não deve nada para você e que o fundo do poço pode estar muito mais abaixo.

Jurandir Sell Macedo Junior é doutor em Finanças, professor da UFSC