terça-feira, 26 de agosto de 2008

Dê mais crédito para os banqueiros

O mercado se entusiasmou ao ver um ensaio de recuperação das ações de bancos durante a manhã de sexta-feira. Mas a alegria durou pouco e a alta dos papéis voltou a perder força. As preferenciais (PN, sem voto) do Bradesco fecharam em leve alta de 0,60% e as PNs do Itaú subiram 0,90%. Os papéis do setor sofreram bem no primeiro semestre pelo efeito contágio da crise do setor hipotecário americano e deixaram totalmente em segundo plano o cenário interno de crescimento econômico, expansão do crédito e inadimplência controlada. Os analistas estão otimistas e acreditam que, em algum momento deste semestre, as ações terão de refletir a situação dos bancos brasileiros que, na visão deles, deve continuar benigna, a despeito do processo de alta da taxa básica de juros e de um arrefecimento da atividade econômica.

"O mercado vive de 'modinhas' e a moda do momento é não gostar das ações de bancos e o pior, sem nenhum motivo forte que justifique essa má vontade", diz o chefe de análise da Link Investimentos, Celso Boin Júnior. No ano, até sexta-feira, as PNs do Bradesco estão caindo 17,72%, enquanto o Índice Bovespa tem queda de 12,58%. Já as units (recibo de ações) do Unibanco se desvalorizam 18,84% e as PNs do Itaú, 11,02%. A crise de crédito hipotecário nos EUA foi um dos grandes motivos para a depressão dos papéis. Com medo que os problemas nos bancos americanos e europeus se alastrassem para as instituições financeiras do mundo inteiro, mais do que depressa os investidores venderam o que tinham de papéis do setor. Internamente, também se esperava que as carteiras de crédito dos bancos brasileiros crescessem em níveis bem menores do que os de 2007.

Os analistas de vários bancos estrangeiros tiveram uma parcela de culpa nesse mau humor, acredita Boin. "Alguns desses catastrofistas cogitaram a possibilidade de a crise americana atingir bancos de países emergentes e a carteira de crédito das instituições brasileiras crescerem menos de 20% este ano", relembra. Adicionalmente, havia rumores de que o governo aumentaria o depósito compulsório dos bancos, como forma de conter o crédito.

A questão é de que nada disso chegou nem perto de acontecer. Ao contrário. A crise americana não fez cócegas nos bancos brasileiros e o crédito cresceu muito acima do que se esperava. O último dado divulgado pelo Banco Central (BC) apontou um acréscimo do crédito de 33% no primeiro semestre, ante o mesmo mês de 2007, a R$ 1,067 trilhão

As perspectivas dos analistas são de que o crédito ainda crescerá bem no segundo semestre, mesmo com a alta da Selic, que a inadimplência seguirá sob controle e os "spreads" (diferença entre o custo de captação e as taxas cobradas dos clientes) continuarão altos. Pelas estimativas de Boin, o crédito deve crescer 25% este ano ante os 28% de 2007. O processo de elevação da Selic deve em algum momento reduzir a demanda de crédito por parte das pessoas físicas em modalidades como o crédito consignado. No entanto, o aumento da tomada de crédito pelas pequenas e médias empresas deve mais do que compensar o arrefecimento em pessoa física.

O retorno sobre patrimônio líquido (ROE, um indicador muito usado para medir o nível de eficiência dos bancos) dos grandes conglomerados nacionais está na casa dos 25% a 27% ao ano, abaixo dos 35% do passado, mas ainda entre os maiores percentuais do mundo. "Um ROE de 35% ao ano era algo anormal e, além disso, um ROE de 25% significa que os bancos retornam um quarto do patrimônio por ano, algo excepcional", diz o analista da Ágora Corretora Aloísio Lemos. Ele acredita que o crédito deverá crescer 20% no segundo semestre e 25% no ano em comparação a 2007.

"Em algum momento a recuperação desses papéis virá, portanto, esta é uma boa hora para comprá-los", diz Lemos. Ele recomenda a compra das ações da Itaúsa (holding do Itaú), do Unibanco e da seguradora SulAmérica. Boin, da Link Investimentos, recomenda a compra dos papéis do Bradesco e do Itaú. Ele lembra que o indicador de preço sobre lucro (P/L, que dá uma idéia de tempo de retorno) dos bancos está muito abaixo do que deveria.

Daniele Camba é repórter de Investimentos