Por: Giulia Santos Camillo
InfoMoney
O otimismo gerado pela perspectiva de resolução das questões dos dividendos retidos nas décadas de 1970 e 1980 e da listagem de ADRs (American Depositary Receipts) nível II da Eletrobrás (ELET3, ELET6) não é consenso.
Embora no curto prazo a perspectiva de pagamento dos dividendos seja um driver importante dos papéis ordinários, alguns riscos não podem ser desconsiderados. Enquanto alguns analistas recomendam compra das ações, outros sugerem a venda ou apenas manutenção.
Se os motivos para o otimismo são claros - desconto dos papéis em relação aos rivais, dividendos e aumento gradativo da transparência - as razões para a cautela também são bem fundamentadas, sendo que a ingerência política e a questão do vencimento das concessões ocupam o topo da lista.
Opiniões diversas
Para discutir o assunto, a InfoMoney entrevistou separadamente dois analistas do setor elétrico, com recomendações diferentes. De um lado, sugerindo compra dos papéis, o analista do Banco Fator, Renato Pinto. Do outro, recomendando manutenção das ações, Sérgio Tamashiro, da Itaú Corretora. Confira as entrevistas:
InfoMoney - A potencial resolução da questão dos dividendos até o início de 2009 muda as perspectivas para os papéis a médio e longo prazo?
Renato Pinto - Banco Fator - Eu acho que indica uma melhora de governança. Uma situação que há anos está para ser resolvida e não acontecia: eu acho que é positivo nesse sentido.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Não a médio. Eu acho que ela só pode mudar a perspectiva de curto prazo. É a resolução de uma pendência. Não indica que lá na frente ela vai ficar uma melhor pagadora de dividendo ou pior. Não muda a perspectiva.
Ela muda um pouco a questão da percepção porque mostra a intenção do Governo de falar 'temos uma pendência, vamos arrumar'. Ela dá um viés de que o Governo está com boa vontade.
InfoMoney - Apesar da melhora na transparência da Eletrobrás, há preocupação com a interferência do Governo na empresa. Isso justifica os descontos das ações frente aos papéis de companhias do mesmo setor?
Renato Pinto - Banco Fator - Eu acho que isso tem que mudar. O problema é que tem estruturas deficitárias do passado, e algumas delas estão querendo mudar, como é o caso da Eletronuclear e das empresas federalizadas.
É um processo lento de mudança, mas está se encaminhando para a mudança dessas estruturas deficitárias. Agora, ingerência política, em uma estatal, sempre tem. Até na Petrobras.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - É totalmente justificável. É por isso que, no fundo, é um papel muito barato. Uma empresa privada busca pela maximização de lucros e de resultados. E na Eletrobrás você não tem isso muito claro. Você não sabe se o foco vai ser garantir o suprimento de energia a qualquer preço ou se vai ser uma otimização de resultados.
Uma empresa privada, se ela vir que o retorno não está atrativo, ela simplesmente não entra no projeto. E essas outras companhias da Eletrobrás vêem que o retorno não está atrativo, mas se é necessário para o País, elas acabam investindo. É por essa preocupação que esse desconto existe e é justificável.
InfoMoney - A perspectiva é que essa interferência política continue?
Renato Pinto - Banco Fator - É difícil dizer. Em política, nunca dá para prever. Mas eu acho que tem uma manifestação de que tem que mudar essas estruturas deficitárias. Isso é positivo. Porque a empresa tem muito investimento para fazer pela frente: ela quer captar tanto em dívida como ações, no futuro. Então ela tem que começar a fazer a lição de casa agora.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - É muito improvável que termine. Enquanto a empresa não for privatizada, eu acho que isso não vai ser alterado. Pode ser de uma forma sutil ou não, mas sempre vai existir. O que muda, ou está mudando um pouco, é o discurso.
InfoMoney - Qual a sua visão sobre a interferência política nas federalizadas? Há uma perspectiva positiva em torno da capacidade da nova Diretoria de modificar essa situação?
Renato Pinto - Banco Fator - Eu acho que está melhor, nesse ponto. As empresas também têm um problema estrutural porque elas estão em um sistema isolado, então interligando elas, o próprio custo de compra de energia tende a cair. Não é só interferência política, as empresas não são estruturadas.
Pelo fato de usarem óleo combustível, você tem uma tarifa subsidiada e quem paga o subsídio é própria a Eletrobrás, em parte. Acho que é um pouco disso também.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Eu acho que continua exatamente como era há muitos anos. Mesmo com o governo do Fernando Henrique, que ficou oito anos, não teve mudança nenhuma no papel da administração da empresa. Então agora, mesmo sendo no segundo governo Lula também, ele pode mudar o discurso, mas, na prática, a efetivação vai ser muito pequena.
InfoMoney - As perdas das federalizadas normalmente são listadas entre os grandes impactos negativos nos balanços da companhia, inclusive havendo pressão para privatização ou separação desses ativos da Eletrobrás. Qual a sua opinião?
Renato Pinto - Banco Fator - Pode até separar os ativos, mas primeiro tem que arrumar a casa. Está uma situação deplorável, não tem valor nenhum. Então tem que arrumar um pouco lá para depois ver o que vai fazer. A princípio não vão fazer nada disso. É uma tentativa de reestruturar e depois ver o que faz, se vende ou separa da própria Eletrobrás.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Essa visão foi mais forte anos atrás. Logo depois que o Lula tinha entrado. Mas agora, nesse segundo governo, eu acho que eles não estão mais tentando fazer uma privatização e sim tentando melhorar o resultado das próprias empresas, sem deixarem de ser estatais. Então esse é o discurso: deixar as empresas mais rentáveis sem, necessariamente, privatizá-las.
InfoMoney - Um outro fator levantado é que grande parte das concessões de geração e transmissão expira em 2015, sendo que o Governo ainda não definiu uma solução. Isso representa risco significativo?
Renato Pinto - Banco Fator - Eu acho que não. No fundo, esse é o único trunfo que o Governo tem para que as tarifas não sejam muito altas no futuro. Principalmente no próximo leilão, em 2013, esse é o único trunfo que o Governo tem. Então acho que é uma coisa que ele vai jogar como forma de cobrar algum tipo de redutor.
Mas não só para ela, é para todas que estão no mesmo barco. Tanto que você vê que não saiu a privatização da Cesp por conta disso.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Esse é um risco significativo sim, porque no total, mais de 70% ou 80% dos ativos do grupo Eletrobrás como um todo - falando como Furnas, Chesf, etc - têm concessões vencendo a partir de 2015. Ou seja, se ele decidir utilizar essas mesmas regras que estão adotando para a Cesp, o risco para a empresa também é bastante grande.
Ela pode perder essas concessões e não receber quase nada porque esses ativos estão totalmente depreciados. Então, se ela perder essa concessão, ela vai perder as empresas que mais geram caixa para ela. Ela perde todo esse potencial de gerar recursos e também a capacidade de fazer novos investimentos.
É uma diferença significativa e tem que se achar uma solução. Não vai ser uma solução para a Cesp, vai ser uma solução para o setor elétrico. Vai ter que ser uma regra geral. Não pode fazer uma lei chamada 'Lei Cesp'. E nessa lei geral, que engloba várias companhias inclusive a Cemig, a Copel, eu acho que vai encontrar uma boa solução.
InfoMoney - Algum outro fator influencia a sua recomendação?
Renato Pinto - Banco Fator - Todo esse processo de transformação. Há um ganho de capital nas ordinárias muito importante com o pagamento dos dividendos e tem uma empresa que sinaliza que os fundamentos devem melhorar com o fim das estruturas deficitárias.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Concessão e, principalmente, a questão do management, acho que são os dois principais pontos. Porque como valuation, ela é uma empresa muito barata. Pelo valor dos ativos dela, se ela fosse privada, poderia valer muito mais do que isso. Todo esse desconto é exatamente a questão de management.
InfoMoney
O otimismo gerado pela perspectiva de resolução das questões dos dividendos retidos nas décadas de 1970 e 1980 e da listagem de ADRs (American Depositary Receipts) nível II da Eletrobrás (ELET3, ELET6) não é consenso.
Embora no curto prazo a perspectiva de pagamento dos dividendos seja um driver importante dos papéis ordinários, alguns riscos não podem ser desconsiderados. Enquanto alguns analistas recomendam compra das ações, outros sugerem a venda ou apenas manutenção.
Se os motivos para o otimismo são claros - desconto dos papéis em relação aos rivais, dividendos e aumento gradativo da transparência - as razões para a cautela também são bem fundamentadas, sendo que a ingerência política e a questão do vencimento das concessões ocupam o topo da lista.
Opiniões diversas
Para discutir o assunto, a InfoMoney entrevistou separadamente dois analistas do setor elétrico, com recomendações diferentes. De um lado, sugerindo compra dos papéis, o analista do Banco Fator, Renato Pinto. Do outro, recomendando manutenção das ações, Sérgio Tamashiro, da Itaú Corretora. Confira as entrevistas:
InfoMoney - A potencial resolução da questão dos dividendos até o início de 2009 muda as perspectivas para os papéis a médio e longo prazo?
Renato Pinto - Banco Fator - Eu acho que indica uma melhora de governança. Uma situação que há anos está para ser resolvida e não acontecia: eu acho que é positivo nesse sentido.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Não a médio. Eu acho que ela só pode mudar a perspectiva de curto prazo. É a resolução de uma pendência. Não indica que lá na frente ela vai ficar uma melhor pagadora de dividendo ou pior. Não muda a perspectiva.
Ela muda um pouco a questão da percepção porque mostra a intenção do Governo de falar 'temos uma pendência, vamos arrumar'. Ela dá um viés de que o Governo está com boa vontade.
InfoMoney - Apesar da melhora na transparência da Eletrobrás, há preocupação com a interferência do Governo na empresa. Isso justifica os descontos das ações frente aos papéis de companhias do mesmo setor?
Renato Pinto - Banco Fator - Eu acho que isso tem que mudar. O problema é que tem estruturas deficitárias do passado, e algumas delas estão querendo mudar, como é o caso da Eletronuclear e das empresas federalizadas.
É um processo lento de mudança, mas está se encaminhando para a mudança dessas estruturas deficitárias. Agora, ingerência política, em uma estatal, sempre tem. Até na Petrobras.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - É totalmente justificável. É por isso que, no fundo, é um papel muito barato. Uma empresa privada busca pela maximização de lucros e de resultados. E na Eletrobrás você não tem isso muito claro. Você não sabe se o foco vai ser garantir o suprimento de energia a qualquer preço ou se vai ser uma otimização de resultados.
Uma empresa privada, se ela vir que o retorno não está atrativo, ela simplesmente não entra no projeto. E essas outras companhias da Eletrobrás vêem que o retorno não está atrativo, mas se é necessário para o País, elas acabam investindo. É por essa preocupação que esse desconto existe e é justificável.
InfoMoney - A perspectiva é que essa interferência política continue?
Renato Pinto - Banco Fator - É difícil dizer. Em política, nunca dá para prever. Mas eu acho que tem uma manifestação de que tem que mudar essas estruturas deficitárias. Isso é positivo. Porque a empresa tem muito investimento para fazer pela frente: ela quer captar tanto em dívida como ações, no futuro. Então ela tem que começar a fazer a lição de casa agora.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - É muito improvável que termine. Enquanto a empresa não for privatizada, eu acho que isso não vai ser alterado. Pode ser de uma forma sutil ou não, mas sempre vai existir. O que muda, ou está mudando um pouco, é o discurso.
InfoMoney - Qual a sua visão sobre a interferência política nas federalizadas? Há uma perspectiva positiva em torno da capacidade da nova Diretoria de modificar essa situação?
Renato Pinto - Banco Fator - Eu acho que está melhor, nesse ponto. As empresas também têm um problema estrutural porque elas estão em um sistema isolado, então interligando elas, o próprio custo de compra de energia tende a cair. Não é só interferência política, as empresas não são estruturadas.
Pelo fato de usarem óleo combustível, você tem uma tarifa subsidiada e quem paga o subsídio é própria a Eletrobrás, em parte. Acho que é um pouco disso também.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Eu acho que continua exatamente como era há muitos anos. Mesmo com o governo do Fernando Henrique, que ficou oito anos, não teve mudança nenhuma no papel da administração da empresa. Então agora, mesmo sendo no segundo governo Lula também, ele pode mudar o discurso, mas, na prática, a efetivação vai ser muito pequena.
InfoMoney - As perdas das federalizadas normalmente são listadas entre os grandes impactos negativos nos balanços da companhia, inclusive havendo pressão para privatização ou separação desses ativos da Eletrobrás. Qual a sua opinião?
Renato Pinto - Banco Fator - Pode até separar os ativos, mas primeiro tem que arrumar a casa. Está uma situação deplorável, não tem valor nenhum. Então tem que arrumar um pouco lá para depois ver o que vai fazer. A princípio não vão fazer nada disso. É uma tentativa de reestruturar e depois ver o que faz, se vende ou separa da própria Eletrobrás.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Essa visão foi mais forte anos atrás. Logo depois que o Lula tinha entrado. Mas agora, nesse segundo governo, eu acho que eles não estão mais tentando fazer uma privatização e sim tentando melhorar o resultado das próprias empresas, sem deixarem de ser estatais. Então esse é o discurso: deixar as empresas mais rentáveis sem, necessariamente, privatizá-las.
InfoMoney - Um outro fator levantado é que grande parte das concessões de geração e transmissão expira em 2015, sendo que o Governo ainda não definiu uma solução. Isso representa risco significativo?
Renato Pinto - Banco Fator - Eu acho que não. No fundo, esse é o único trunfo que o Governo tem para que as tarifas não sejam muito altas no futuro. Principalmente no próximo leilão, em 2013, esse é o único trunfo que o Governo tem. Então acho que é uma coisa que ele vai jogar como forma de cobrar algum tipo de redutor.
Mas não só para ela, é para todas que estão no mesmo barco. Tanto que você vê que não saiu a privatização da Cesp por conta disso.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Esse é um risco significativo sim, porque no total, mais de 70% ou 80% dos ativos do grupo Eletrobrás como um todo - falando como Furnas, Chesf, etc - têm concessões vencendo a partir de 2015. Ou seja, se ele decidir utilizar essas mesmas regras que estão adotando para a Cesp, o risco para a empresa também é bastante grande.
Ela pode perder essas concessões e não receber quase nada porque esses ativos estão totalmente depreciados. Então, se ela perder essa concessão, ela vai perder as empresas que mais geram caixa para ela. Ela perde todo esse potencial de gerar recursos e também a capacidade de fazer novos investimentos.
É uma diferença significativa e tem que se achar uma solução. Não vai ser uma solução para a Cesp, vai ser uma solução para o setor elétrico. Vai ter que ser uma regra geral. Não pode fazer uma lei chamada 'Lei Cesp'. E nessa lei geral, que engloba várias companhias inclusive a Cemig, a Copel, eu acho que vai encontrar uma boa solução.
InfoMoney - Algum outro fator influencia a sua recomendação?
Renato Pinto - Banco Fator - Todo esse processo de transformação. Há um ganho de capital nas ordinárias muito importante com o pagamento dos dividendos e tem uma empresa que sinaliza que os fundamentos devem melhorar com o fim das estruturas deficitárias.
Sérgio Tamashiro - Itaú Corretora - Concessão e, principalmente, a questão do management, acho que são os dois principais pontos. Porque como valuation, ela é uma empresa muito barata. Pelo valor dos ativos dela, se ela fosse privada, poderia valer muito mais do que isso. Todo esse desconto é exatamente a questão de management.