domingo, 31 de agosto de 2008

"Mundo vive um super ciclo de commodities", afirma diretor de fundo

Por: Gustavo Kahil

Desde 1789 o mundo passa por super ciclos no mercado de commodities, afirma Lance Reinhardt, diretor para América Latina do Superfund, que administra um patrimônio de cerca de US$ 1,6 bilhão. Para ele, os movimentos de valorização no mercado duram 24 anos e os de baixa, 29.

"Assumindo que o último boom teve início em 2001, devemos realmente esperar que os preços das commodities avancem pelos próximos dezoito anos", prevê Reinhardt durante entrevista à InfoMoney. "Não acredito que o mundo tenha mudado muito nos últimos anos para mudar estes 200 anos de ciclos", destaca.

Especulação
O avanço do preço do petróleo no mercado internacional nos últimos meses gerou grande discussão sobre a origem das forças que mexem com os mercados. Muitos apontaram o dedo aos hedge funds. Outros simplesmente acreditam que há fundamentos por detrás.

Esta é a visão de Reinhardt. "Desde outubro de 2001, quando realmente começamos a ver um mercado de commodities com forte tendência de alta [bull market], em minha opinião, o movimento está amparado em fundamentos, mais notadamente no aumento da demanda da China e Índia".

InfoMoney - A discussão sobre o quanto um aumento dos preços das commodities reage aos fundamentos da economia ou às estratégias financeiras parece uma discussão sem fim. É possível hoje medir a participação de cada um destes fatores precisamente? Este detalhe é importante para os investimentos ou trata-se de apenas uma curiosidade acadêmica?

Lance Leinhardt - É apenas uma curiosidade acadêmica. Em minha opinião são os fundamentos que têm guiado os preços. E para responder a primeira parte da sua questão, não acredito que seja fácil medir quanto dinheiro vem de cada fonte. Agricultores, por exemplo, podem investir em hedge funds para se proteger de variações de preços de entregas futuras. O mesmo pode ser dito para mineradores.

Desde outubro de 2001, quando realmente começamos a ver um mercado com forte tendência de alta [bull market, veja gráfico abaixo], em minha opinião, o movimento está amparado em fundamentos, mais notadamente no aumento da demanda da China e Índia. Além disso, a linha de pobreza elevou-se nos demais mercados emergentes nos últimos dez anos.

Este processo resultou em uma maior demanda por alimentos de maior qualidade, com mais proteína. Assim, a demanda por soja, milho, trigo, entre outros, disparou. Há ainda o maior boom da construção civil da história em regiões como Dubai e na China, que puxaram os preços do cobre para cima. Há fundamentos em praticamente qualquer mercado que você olhar.

Estamos vivendo um super ciclo das commodities?

Desde 1789 até hoje, na média, temos assistido movimentos de alta de 24 anos e movimentos de baixa de 29 anos. Assumindo que o último boom das commodities teve início em 2001, devemos realmente esperar que os preços das commodities avancem pelos próximos dezoito anos.

Do lado altista, por exemplo, vemos o período da Revolução Francesa e das guerras Napoleônicas, iniciado em 1789 e encerrado em 1814. Depois os preços ajustaram-se até 1849, quando a ocasião da Revolução Industrial na Europa retomou a tendência de alta dos preços em 1850, até 1870.

Após este período os preços caíram novamente até 1896, quando os EUA começaram a emergir como uma potência econômica mundial. A valorização durou até a década de 20 do século passado, quando a alta inflação pressionou novamente os preços. Depois da Segunda Guerra Mundial, por volta do final da década de 1960 e 1970 teve início outro ciclo de alta, que encerrou em 1981, quando as commodities registraram queda até 2001.

As commodities passaram por um período de fraqueza nos últimos meses, apesar da recuperação recente. Este movimento deve continuar?

Não acredito que esta fraqueza irá continuar. O mercado altista começou em 2001 e acredito que deve manter este rumo no longo prazo, por mais vinte anos. O fundamento por detrás é que a oferta não tem acompanhado a população em um ritmo de crescimento acelerado em países em desenvolvimento, como pode ser visto com o mercado de petróleo.

Existem novas descobertas, como no Brasil, por exemplo, mas o tempo e dinheiro necessários para extração são muito grandes. O petróleo não está mais tão acessível quanto era há duas ou três décadas. A minha expectativa é de que o petróleo, na média, chegue ao nível entre US$ 140 e US$ 150 no primeiro trimestre de 2009.

No longo prazo, como os economistas podem calcular booms e quedas dos preços das commodities?

Você não precisa exatamente calcular, mas simplesmente usar a história como uma medida. Assim como expliquei anteriormente, desde o final do século 18 temos presenciado ciclos de 24 anos de alta e de 29 anos em queda. Não acredito que o mundo tenha mudado muito nos últimos anos para mudar estes 200 anos de ciclos.

Mas é claro que existem pequenos períodos dentro dos super ciclos nos quais podem ocorrer recessões ou de realização de lucros. Este pequeno período que iniciou em julho é normal e típico. Apenas reflete o movimento de investidores embolsando lucros.