Crise dos derivativos: Enquanto companhia de celulose ainda luta contra herança da crise, empresa de alimentos alcança posição de dívida confortável.
Por Graziella Valenti e Silvia Fregoni
Passado mais de um ano desde o estouro da crise dos derivativos "tóxicos", em setembro de 2008, o peso deixado por essas operações na Fibria e na BRF-Brasil Foods é bem diferente. Ambas as empresas são, em alguma medida, resultado dos prejuízos gerados por esses contratos de alto risco.
Enquanto a Fibria, produto da combinação de VCP e Aracruz, ainda se esforça para reescalonar seu passivo, a BRF, união de Perdigão e Sadia, alcançou a melhor nota de risco de crédito do setor de alimentos.
Ao final de 2009, a Fibria tinha uma dívida líquida de R$ 10,7 bilhões, equivalente a 6,3 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (lajida) do período, de R$ 1, 7 bilhão.
Por conta desse cenário, a companhia decidiu não distribuir dividendos referentes a 2009, para fortalecer o balanço. "A medida tem por objetivo preservar o caixa", disse Marcos Grodetzky, diretor financeiro e de relações com investidores da Fibria, durante teleconferência com analistas.
Já a BRF tinha responsabilidades líquidas de R$ 3,8 bilhões em dezembro, que representavam 3,2 vezes o lajida do ano passado, que somou R$ 1,2 bilhão. "Essa relação chegou a superar 5 vezes, no pior momento", lembrou Leopoldo Saboya, diretor financeiro e de relações com investidores da BRF.
Sadia e Aracruz foram as companhias que tiveram as maiores perdas conhecidas por conta dos derivativos cambiais de alto risco. A companhia de alimentos sofreu prejuízo de R$ 2,55 bilhões, enquanto a empresa de celulose e papel teve perda de US$ 2,13 bilhões (R$ 4,1 bilhões).
O anúncio dessas perdas - que inicialmente foram estimadas em valores muito inferiores - provocou pânico no mercado e levou ao conhecimento de que diversas empresas, em sua grande maioria de capital fechado, tinham tais contratos. Nunca houve um número consolidado a respeito de tais perdas no país, mas estima-se que possam ter chegado a R$ 30 bilhões.
A diferença na situação financeira atual de Fibria e BRF reflete os caminhos adotados após a descoberta das perdas, além de particularidades do próprio processo de fusão das companhias.
A Aracruz, devido à pressão do mercado e dos próprios bancos, transformou a perda em dólar com os derivativos numa dívida comum, para ser paga em nove anos. Antes disso, travou o dólar do prejuízo numa cotação acima de R$ 2, temendo que a moeda continuasse se valorizando. Na época, a renegociação inclui outros compromissos, cujas cláusulas financeiras foram descumpridas. No total, foram renegociados US$ 2,6 bilhões. A Aracruz chegou a ter uma posição vendida em dólar de US$ 10 bilhões.
Já a Sadia, após reduzir uma pequena parte da exposição dos contratos de imediato, acabou por deixar as operações abertas até o vencimento de cada uma delas. Para limitar as perdas, fez transações na ponta contrária. No pior momento do cambio, acumulou uma exposição de US$ 7 bilhões. Mas, por conta disso, hoje já não carrega mais nenhuma responsabilidade daquela época. "Foi tudo encerrado no terceiro trimestre [de 2009]", explicou Saboya.
No caso da Fibria, a dívida herdada da Aracruz se juntou aos compromissos provenientes da compra do controle da companhia pela VCP. O grupo, que já tinha 28% das ações ordinárias (com voto) da Aracruz, havia assumido com o Lorentzen o preço de R$ 2,7 bilhões por uma fatia também de 28% do capital votante antes dos derivativos. A transação chegou a ser interrompida pela descoberta das operações, que também afetaram a Votorantim Industrial em R$ 2,2 bilhões. O negócio foi retomado três meses mais tarde. Na versão final, além da fatia dos Lorentzen, a VCP comprou os 28% detidos pela família Safra, por mais R$ 2,7 bilhões.
"As condições do contrato [com os Lorentzen] eram inflexíveis, o que foi um ônus a mais para a história da Fibria", destaca Richard Sippli, analista da Moody's.
A criação da BRF não teve esse agravante às finanças. A operação foi feita por meio de troca de ações, incluindo a fatia dos minoritários da Sadia. Para completar, junto com a combinação das empresas foi feita uma oferta de ações que rendeu R$ 5,3 bilhões ao caixa da nova companhia - mais do que o dobro da perda com derivativos.
Enquanto a Fibria fez uma capitalização privada de R$ 4,2 bilhões, preocupada em manter o controle nas mãos da VCP, a BRF pode lançar uma oferta pública, uma vez que a companhia caminha para o modelo de pulverização de capital desde 2006 - quando ainda era apenas a Perdigão. Na operação da Fibria, o principal fornecedor de recursos foi o BNDES, que entrou no acordo de acionistas até 2014.
No começo deste ano, a BRF fez também uma emissão de bônus no exterior de US$ 750 milhões. Com isso, tem em caixa atualmente R$ 6,2 bilhões e alongou ainda mais seus vencimentos. Saboya afirmou que a empresa usará os recursos para reduzir a dívida bruta, que estava em R$ 8,8 bilhões em dezembro. Contudo, a dívida líquida deve permanecer estável.
A companhia tem atualmente classificação de risco de crédito 'Ba1' pela Moody's. De acordo com o analista Soummo Mukherjee, a nota é duas acima da Tyson Foods e três acima da média dos grandes frigoríficos brasileiros, como JBS e Marfrig. De acordo com ele, a situação é confortável e a empresa tem boa governança corporativa.
A Fibria também obteve dinheiro novo neste ano. A empresa fez um pré-pagamento de exportações de US$ 1,2 bilhão, com prazo de até sete anos, e emitiu um eurobônus de US$ 1 bilhão, de dez anos. Esses recursos, mais o US$ 1,4 bilhão obtido com a venda da unidade de Guaíba (RS), foram destinados principalmente ao pagamento da dívida. Grodetzky ressaltou que, apesar do desafio, a companhia já tem em caixa cerca de 70% dos vencimentos dos próximos dois anos.
A expectativa dos especialistas é que ambas as companhias melhorem seus indicadores neste ano, com avanço nas margens operacionais. Tanto Fibria quanto BRF sofreram com margem baixas em 2009, por conta do cenário externo adverso.
Para o futuro, contudo, os derivativos devem continuar uma herança mais pesada para a Fibria. "Por conta da dívida, a empresa terá dificuldade de investir e ampliar sua capacidade produtiva", avalia Mônica Araújo, analista da Ativa Corretora. Com isso, não aproveitará todo o potencial do ciclo de alta da celulose.
Já a BRF tem capacidade ociosa e opera atualmente perto de 85% de seu potencial. Por isso, a empresa poderá investir apenas a taxa de depreciação de seus ativos nos próximos dois anos, cerca de R$ 1,1 bilhão. Tanto Perdigão como especialmente a Sadia tinham feito investimentos na construção de novas fábricas. A taxa média de investimento das duas entre 2006 e 2008 foi de R$ 2,4 bilhões.
O episódio com os derivativos se transformou num peso também para os diretores financeiros das companhias na época, imediatamente afastados. Adriano Ferreira, da Sadia, e Isac Zagury, da Aracruz, são alvo de processos civis ajuizados pelas próprias empresas.
Por Graziella Valenti e Silvia Fregoni
Passado mais de um ano desde o estouro da crise dos derivativos "tóxicos", em setembro de 2008, o peso deixado por essas operações na Fibria e na BRF-Brasil Foods é bem diferente. Ambas as empresas são, em alguma medida, resultado dos prejuízos gerados por esses contratos de alto risco.
Enquanto a Fibria, produto da combinação de VCP e Aracruz, ainda se esforça para reescalonar seu passivo, a BRF, união de Perdigão e Sadia, alcançou a melhor nota de risco de crédito do setor de alimentos.
Ao final de 2009, a Fibria tinha uma dívida líquida de R$ 10,7 bilhões, equivalente a 6,3 vezes o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (lajida) do período, de R$ 1, 7 bilhão.
Por conta desse cenário, a companhia decidiu não distribuir dividendos referentes a 2009, para fortalecer o balanço. "A medida tem por objetivo preservar o caixa", disse Marcos Grodetzky, diretor financeiro e de relações com investidores da Fibria, durante teleconferência com analistas.
Já a BRF tinha responsabilidades líquidas de R$ 3,8 bilhões em dezembro, que representavam 3,2 vezes o lajida do ano passado, que somou R$ 1,2 bilhão. "Essa relação chegou a superar 5 vezes, no pior momento", lembrou Leopoldo Saboya, diretor financeiro e de relações com investidores da BRF.
Sadia e Aracruz foram as companhias que tiveram as maiores perdas conhecidas por conta dos derivativos cambiais de alto risco. A companhia de alimentos sofreu prejuízo de R$ 2,55 bilhões, enquanto a empresa de celulose e papel teve perda de US$ 2,13 bilhões (R$ 4,1 bilhões).
O anúncio dessas perdas - que inicialmente foram estimadas em valores muito inferiores - provocou pânico no mercado e levou ao conhecimento de que diversas empresas, em sua grande maioria de capital fechado, tinham tais contratos. Nunca houve um número consolidado a respeito de tais perdas no país, mas estima-se que possam ter chegado a R$ 30 bilhões.
A diferença na situação financeira atual de Fibria e BRF reflete os caminhos adotados após a descoberta das perdas, além de particularidades do próprio processo de fusão das companhias.
A Aracruz, devido à pressão do mercado e dos próprios bancos, transformou a perda em dólar com os derivativos numa dívida comum, para ser paga em nove anos. Antes disso, travou o dólar do prejuízo numa cotação acima de R$ 2, temendo que a moeda continuasse se valorizando. Na época, a renegociação inclui outros compromissos, cujas cláusulas financeiras foram descumpridas. No total, foram renegociados US$ 2,6 bilhões. A Aracruz chegou a ter uma posição vendida em dólar de US$ 10 bilhões.
Já a Sadia, após reduzir uma pequena parte da exposição dos contratos de imediato, acabou por deixar as operações abertas até o vencimento de cada uma delas. Para limitar as perdas, fez transações na ponta contrária. No pior momento do cambio, acumulou uma exposição de US$ 7 bilhões. Mas, por conta disso, hoje já não carrega mais nenhuma responsabilidade daquela época. "Foi tudo encerrado no terceiro trimestre [de 2009]", explicou Saboya.
No caso da Fibria, a dívida herdada da Aracruz se juntou aos compromissos provenientes da compra do controle da companhia pela VCP. O grupo, que já tinha 28% das ações ordinárias (com voto) da Aracruz, havia assumido com o Lorentzen o preço de R$ 2,7 bilhões por uma fatia também de 28% do capital votante antes dos derivativos. A transação chegou a ser interrompida pela descoberta das operações, que também afetaram a Votorantim Industrial em R$ 2,2 bilhões. O negócio foi retomado três meses mais tarde. Na versão final, além da fatia dos Lorentzen, a VCP comprou os 28% detidos pela família Safra, por mais R$ 2,7 bilhões.
"As condições do contrato [com os Lorentzen] eram inflexíveis, o que foi um ônus a mais para a história da Fibria", destaca Richard Sippli, analista da Moody's.
A criação da BRF não teve esse agravante às finanças. A operação foi feita por meio de troca de ações, incluindo a fatia dos minoritários da Sadia. Para completar, junto com a combinação das empresas foi feita uma oferta de ações que rendeu R$ 5,3 bilhões ao caixa da nova companhia - mais do que o dobro da perda com derivativos.
Enquanto a Fibria fez uma capitalização privada de R$ 4,2 bilhões, preocupada em manter o controle nas mãos da VCP, a BRF pode lançar uma oferta pública, uma vez que a companhia caminha para o modelo de pulverização de capital desde 2006 - quando ainda era apenas a Perdigão. Na operação da Fibria, o principal fornecedor de recursos foi o BNDES, que entrou no acordo de acionistas até 2014.
No começo deste ano, a BRF fez também uma emissão de bônus no exterior de US$ 750 milhões. Com isso, tem em caixa atualmente R$ 6,2 bilhões e alongou ainda mais seus vencimentos. Saboya afirmou que a empresa usará os recursos para reduzir a dívida bruta, que estava em R$ 8,8 bilhões em dezembro. Contudo, a dívida líquida deve permanecer estável.
A companhia tem atualmente classificação de risco de crédito 'Ba1' pela Moody's. De acordo com o analista Soummo Mukherjee, a nota é duas acima da Tyson Foods e três acima da média dos grandes frigoríficos brasileiros, como JBS e Marfrig. De acordo com ele, a situação é confortável e a empresa tem boa governança corporativa.
A Fibria também obteve dinheiro novo neste ano. A empresa fez um pré-pagamento de exportações de US$ 1,2 bilhão, com prazo de até sete anos, e emitiu um eurobônus de US$ 1 bilhão, de dez anos. Esses recursos, mais o US$ 1,4 bilhão obtido com a venda da unidade de Guaíba (RS), foram destinados principalmente ao pagamento da dívida. Grodetzky ressaltou que, apesar do desafio, a companhia já tem em caixa cerca de 70% dos vencimentos dos próximos dois anos.
A expectativa dos especialistas é que ambas as companhias melhorem seus indicadores neste ano, com avanço nas margens operacionais. Tanto Fibria quanto BRF sofreram com margem baixas em 2009, por conta do cenário externo adverso.
Para o futuro, contudo, os derivativos devem continuar uma herança mais pesada para a Fibria. "Por conta da dívida, a empresa terá dificuldade de investir e ampliar sua capacidade produtiva", avalia Mônica Araújo, analista da Ativa Corretora. Com isso, não aproveitará todo o potencial do ciclo de alta da celulose.
Já a BRF tem capacidade ociosa e opera atualmente perto de 85% de seu potencial. Por isso, a empresa poderá investir apenas a taxa de depreciação de seus ativos nos próximos dois anos, cerca de R$ 1,1 bilhão. Tanto Perdigão como especialmente a Sadia tinham feito investimentos na construção de novas fábricas. A taxa média de investimento das duas entre 2006 e 2008 foi de R$ 2,4 bilhões.
O episódio com os derivativos se transformou num peso também para os diretores financeiros das companhias na época, imediatamente afastados. Adriano Ferreira, da Sadia, e Isac Zagury, da Aracruz, são alvo de processos civis ajuizados pelas próprias empresas.