segunda-feira, 30 de junho de 2008

Petróleo: quem ganha e quem perde com a escalada das cotações?

Por: Camila da Rocha Mendes

A disparada nas cotações internacionais do petróleo já quebraram não somente marcas históricas mas também projeções - nesta sexta-feira (27), o contrato com entrega para agosto chegou, no intraday, a ultrapassar US$ 142 na Nymex (New York Mercantile Exchange) e fechou a US$ 140,21, valor recorde.

A projeção da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) é de que o barril atinja US$ 170 já nos próximos meses. Insumo básico de energia, o petróleo é um dos fatores principais na formação de preços em geral, pois é necessário em praticamente qualquer cadeia de atividade. E justamente por isso a recente disparada nas cotações preocupa: por gerar pressão inflacionária.

Porém, quais indústrias são diretamente afetadas pela escalada no valor internacional do óleo? E quais se beneficiam?

Petroquímicas
No caso das petroquímicas, a nafta, derivada do petróleo, é insumo básico desta indústria e, consequentemente, seu custo é ajustado de acordo com a variação da commodity. A nafta é utilizada na produção do plástico e, inclusive, a Braskem (BRKM5), uma das maiores no ramo, já anunciou que irá investir cerca de R$ 400 milhões na produção de polietileno verde, produzido através do etanol, com previsões de início de operação para 2010.

No começo do mês, a Braskem anunciou um reajuste de 20% na resina fabricada com nafta. Contudo, a Pet
robras (PETR3, PETR4) estuda uma mudança no modelo de precificação da nafta, podendo resultar em mudanças no valor do insumo.

Para os analistas do Citigroup, visto que a nafta representa 80% dos custos de produção da Braskem, "qualquer redução no preço seria positiva". A análise do banco afirma: "Enquanto uma redução nos custos da nafta poderia ter um impacto significativo no valuation da Braskem e na performance do preço das ações, as perspectivas de ganhos continuam difíceis no curto prazo". A Unip
ar (UNIP5), também muito exposta à nafta, da mesma forma tem sua margem de ganho pressionada pela alta do insumo.

Transportes
O preço de combustíveis é diretamente afetado pela alta do petróleo, mas no Brasil eles são regulados pela Petrobras, uma vez que o governo tem interesse em controlar a inflação. Em abril, a estatal elevou o preço da gasolina em 10% e do diesel em 15%, o que aumentou os custos de empresas de logística, principalmente as que têm maior exposição ao transporte rodoviário e não ferroviário, como a
Tegma (TGMA3).

A elevação de 15% sobre o preço do diesel na refinaria elevará os custos do transporte de cargas completas (lotações) em 2,30% nas médias distâncias (800 quilômetros). Já nas distâncias mais longas (6 mil quilômetros), o impacto nos preços pode chegar a 3,23%, de acordo com estudo do Decope (Departamento de Custos Operacionais e Estudos Técnicos e Econômicos).

Em relação ao diesel de aviação, os ajustes de preços acontecem a cada 15 dias e já empregam às companhias aéreas uma despesa maior entre 30% e 45% , segundo estima o presidente do Snea (Sindicato Nacional das Empresas Aéreas), José Márcio Mollo.

Nos Estado Unidos, o alto preço do óleo de aviação já levou companhias a demitir pessoal e a cancelar encomendas de aeronaves para conter gastos. Por aqui, a situação não é tão drástica no mercado físico, mas na bol
sa TAM (TAMM4), GOL (GOLL4) e Embraer (EMBR3) amargam histórico de duras perdas.

Fertilizantes
As empresas de fertilizantes têm alta exposição ao nitrogênio, insumo derivado do petróleo e usado na produção de adubo. O Brasil não é auto-suficiente na produção desta matéria-prima e boa parte da necessidade da indústria nacional é suprida pela importação.

A Fosfér
til (FFTL4), que atua na produção de produtos intermediários para a elaboração de fertilizantes se encontra menos pressionada pelo aumento do insumo que a Heringer (FHER3), cujo foco está na mistura e na distribuição de fertilizantes. Contudo ambas enfrentam tal dificuldade.

Petrolíferas: únicas beneficiadas
Já para a Petrobras, única petrolífera brasileira, a situação é, de fácil conclusão, favorável, uma vez que ela comercializa a commodity que está quebrando recordes de preço em seqüência.

Em bases anuais, o aumento no preço dos combustíveis comuns - diesel e gasolina -representa uma receita de R$ 6,5 bilhões para a estatal, estima o Bradesco. Lembrando que o lucro líquido da companhia foi de R$ 21,5 bilhões em 2007, os analistas apontam que tal receita não é nem um pouco desprezível, ainda mais tendo em vista que os custos dos investimentos no setor aumentaram sensivelmente nos últimos anos.

Impacto neutro
Por fim, empresas que têm uma exposição aos derivados do petróleo mais diversificada, como é o caso da U
ltrapar (UGPA4), que atua nos setores de combustíveis, químico e de logística integrada, podem ter facilidades para equilibrar custos e também para repassá-los e assim, ter um impacto da alta do petróleo neutro.