segunda-feira, 30 de junho de 2008

Turbulências são mais profundas e aperto monetário global está por vir, diz BIS

Por: Nathália A. Terra Pereira

As turbulências sobre o cenário macroeconômico global, deflagradas pela crise imobiliária norte-americana, podem se mostrar mais extensas e profundas do que o anteriormente previsto. O alerta foi proferido pelo BIS (Banco de Compensações Financeiras, na sigla em inglês), em seu relatório anual divulgado nesta segunda-feira (30).

De acordo com o documento, após tantos anos de sólido crescimento econômico, baixas taxas de inflação e estabilidade nos mercados financeiros, a rápida deterioração que se deu desde a segunda metade do ano passado deve-se ao estouro de uma bolha no setor de crédito, propiciada pelo extenso período de flexibilização monetária generalizada no mundo.

A situação foi ainda agravada pelos complexos mecanismos de securitização desenvolvidos pelas grandes instituições financeiras, que impedem uma devida detecção dos riscos aos quais estavam - e estão - submetidas. Com a crise do subprime, as falhas ficaram expostas. "O que inicialmente parecia um problema relativamente contido, rapidamente se espalhou por todo o sistema", afirmou a instituição.

Emergentes afetados
Com o estouro da bolha, a disponibilidade de crédito no mercado tornou-se muito mais escassa, afetando a demanda agregada e o nível de atividade econômica como um todo. Ademais, com seus rendimentos hipotecários reduzidos, dado a crescente inadimplência e a queda nos preços dos imóveis, muitos norte-americanos cortaram seus gastos com consumo.

Estava propiciado assim o cenário de forte desaceleração na maior economia do mundo, que, no entanto, contamina também outros mercados, como a Europa, Japão e os países em desenvolvimento. "Uma profunda retração nos EUA afeta os emergentes que, embora notavelmente resistentes até aqui, possuem ainda forte dependência quanto à demanda externa por seus produtos", alerta o BIS.

Outro modo de contágio se daria pelo mercado financeiro, uma vez que economias emergentes com elevados déficits em suas contas correntes e alta proporção da dívida externa a curto prazo devem se deparar com dificuldades para conseguir financiamentos externos, caso as condições para obtenção de crédito permaneçam difíceis.

Inflação complica cenário
Em meio a tal contexto tão turbulento por si só, um elemento adicional se põe aos principais bancos centrais: a disparada nos preços das commodities no mercado internacional, que vêm pesando sobre um panorama inflacionário benigno no mundo. "Os riscos à inflação são hoje maiores do que foram em muitos dos últimos anos", diz o relatório.

Na leitura do BIS, este cenário de dualidade, com as condições financeiras afetando o crescimento de um lado e, de outro, perspectivas inflacionárias a longo prazo deteriorando-se continuamente, se constitui como um grande desafio à condução da política monetária global. Não à toa, os Bancos Centrais reagiram de formas diferentes, cada um ponderando o elemento que considerava mais nocivo: o Fed optou por reduzir o juro norte-americano, enquanto que o BCE (Banco Central Europeu) e o BoJ (Bank of Japan) seguiram pelo caminho cauteloso da manutenção.

Mas indícios observados pelo BIS apontam uma inflexão por vir. Ainda que a retração econômica e a crise financeira sigam como elementos a serem atentamente observados, para a instituição, as galopantes taxas de inflação devem ocasionar um período de aperto monetário no mundo. "As circunstâncias em cada país irão condicionar caso por caso", afirma o BIS.

América Latina e Brasil
Caso por caso, qual a visão do BIS sobre a América Latina? Para a instituição financeira internacional, a economia do continente deverá mostrar um crescimento de 4,5%, ainda elevado, porém abaixo do configurado em 2007. O arrefecimento deve-se às turbulências por que passa a economia norte-americana, grande importadora dos bens latino-americanos.

Mas é a inflação que gera maior temor no BIS, que prevê uma taxa de 6,3% ao ano para a América Latina em 2008. "Os últimos aumentos colocaram a inflação acima dos objetivos previstos para 2008", afirma o BIS, para quem, a despeito do inegável impacto das commodities sobre o cenário inflacionário, o descompasso entre elevada demanda e contida oferta no continente se apresenta como grande vilão da alta nos preços.

Quanto ao Brasil, a expectativa do BIS é de que o país mostre uma expansão de 4,8% em seu PIB (Produto Interno Bruto) neste ano, com uma taxa de inflação ao redor de 6,4% ao ano. Cabe lembrar que a projeção do Banco Central para o IPCA em 2008 é de 6,00% ao ano, já bem acima do centro da meta de 4,50% estipulada pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).

Saiba mais sobre o BIS
Sediado na cidade suíça de Basiléia, o BIS foi fundado formalmente em 1930, dado a necessidade de uma maior regulação do ambiente monetário mundial com as turbulências financeiras originadas após o fim da Primeira Guerra Mundial. Com isso, é tida como a instituição financeira internacional em atividade mais antiga.

Servindo como "um banco aos bancos centrais", o BIS promove anualmente uma reunião entre seus 55 membros, presidentes das principais autoridades monetárias no mundo. Os temas abordados são expressos em um relatório anual da instituição, sendo o deste ano o 78º documento elaborado.