quarta-feira, 2 de julho de 2008

Como avaliar os impactos de uma fusão ou aquisição sobre as ações das envolvidas?

Por: Roberto Altenhofen Pires Pereira

O ritmo de consolidação de alguns setores parece inevitável. Nos últimos períodos, uma onda de notícias envolvendo fusões e aquisições colocou em destaque segmentos como o imobiliário, mineração e telefonia. Mas o mesmo tema gerou interpretações distintas dos investidores.

O anúncio de uma fusão, incorporação ou aquisição envolve diversas premissas, e exatamente por isso provoca reflexos diferentes nas ações das companhias envolvidas. São muitos os pontos que cercam estas negociações. Entre os principais, a mudança no grau de endividamento da compradora, as formas de financiamento da aquisição e os potenciais ganhos com o negócio.

De maneira geral, cada caso é um caso. Uma provável aq
uisição envolvendo a Vale (VALE5, VALE3), tão especulada no mercado, é um bom exemplo. Por se tratar de expectativas de uma compra de grandes proporções, o tópico de maior evidência é o novo patamar de endividamento que a companhia pode assumir, fato que vem penalizando as ações da mineradora.

Impacto no endividamento
De maneira simplificada, a avaliação do grau de endividamento de uma empresa é identificar a dívida líquida encontrada no último resultado operacional dividi-la por seu patrimônio líquido. Uma resposta superior a "1" indica que a estrutura de dívidas atual da companhia supera seu patrimônio; sinal de alerta.

Outra questão importante é o prazo para pagamento da dívida. Avaliar o compasso entre ativos e passivos do balanço das empresas compradoras e saber se a atual composição do endividamento destas pode ser saudada em curto ou longo prazo também entra na avaliação do potencial de impacto de uma aquisição.

Um bom retrato desta variável pode ser dado pela relação entre a dívida líquida da empresa e seu Ebitda - geração operacional de caixa - em determinado período. Caso a divisão do primeiro indicador pelo segundo forneça valor inferior a "1", significa que a compradora em questão terá condições de honrar seus compromissos no curto prazo. Por outro lado, valor mais de 2 vezes superior pode indicar cautela com a saúde financeira da empresa; grau de endividamento em nível preocupante.

O preço
Como qualquer objeto comprado por um consumidor, o preço pago em uma aquisição de empresa também é referência importante para a viabilidade do negócio. Saber se o montante pago foi "caro ou barato" envolve inúmeras premissas.

Olhar para o histórico recente de negócios envolvendo companhias do mesmo setor é bom parâmetro para esta questão. Outra referência importante é comparar a geração de caixa da empresa adquirida com o valor pago pela mesma.

As formas de pagamento
Depois de avaliar o preço a ser pago no negócio, um importante passo é saber como a compradora espera arcar com este valor. Em alguns casos, a aquisição é coberta integralmente pelo caixa da compradora, mas na maior parte dos negócios a incorporação passa por financiamento de algum banco ou do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

Algumas aquisições ainda relacionam a emissão de ações ou dívida pela compradora com o objetivo de captar parte do valor necessário no mercado. É o caso recente da Vale. As expectativas do mercado acerca de nova aquisição pela mineradora foram alimentadas pelo anúncio da oferta de ações de até US$ 15 bilhões. Por relacionar uma ampliação do número de papéis da empresa no mercado, geralmente esta alternativa tende a pressionar a cotação das ações.

Troca de ações é menos nociva
Outra possibilidade é a troca de ações. Esta opção geralment
e é menos nociva à cotação dos papéis. Um exemplo recente ilustra bem este quadro: a compra da Agra (AGIN3) pela Cyrela (CYRE3). O negócio entre as incorporadoras imobiliárias envolveu a troca de ações na proporção de 0,425 ação da Cyrela por uma da Agra.

Na ocasião, os analistas consideraram que a aquisição não iria acarretar aumento relevante da dívida líquida da empresa, sendo que a agência de classificação Fitch Ratings anunciou que o negócio não afetaria os IDRs (Ratings de Probabilidade de Inadimplência do Emissor) de longo prazo em moeda estrangeira e local da empresa.

Voltado à questão do preço, este mesmo caso também fornece boa amostra do impacto de uma aquisição aos papéis da companhia adquirida, que variam de acordo com o preço anunciado do negócio. A proposta pela Agra envolveu ágio de quase 50% aos acionistas, fator que explica a valorização de mais de 30% dos ativos naquele 23 de junho e ganhos subseqüentes.

Ganhos em potecial
A avaliação dos ganhos em potencial com uma aquisição depende basicamente das necessidades da compradora. Uma aquisição pode ser fundamentada pela busca de diversificação produtiva, fator bastante relacionado ao caso da Vale, ou na tentativa de verticalização de produção, que remete à aquisição de uma siderúrgica por uma mineradora (fornecedora de matéria-prima), por exemplo.

Outra questão envolve necessidades geográficas. A expansão das operações para mercados consumidores antes não atingidos ou a busca por maior proximidade de seus consumidores com a finalidade de barateamento dos fretes ou redução do prazo de entrega também apresentam casos constantes de fusões e aquisições.

Uma compra também pode relacionar a busca por ganhos de escala, em que a companhia buscar otimizar a utilização dos fatores envolvidos em seu processo produtivo, como baixar custos de produção com o incremento de bens e serviços. Depende basicamente da oportunidade do negócio e da sinergia entre as companhias envolvidas.