terça-feira, 1 de julho de 2008

Depois de um semestre desafiador, saiba o que esperar até o final do ano

Por: Gustavo Kahil

O grau de investimento chegou no final de abril animou o mercado, mas não foi suficiente para conter as incertezas que assolam os investidores desde agosto do ano passado: a crise global de crédito.

Por algum tempo o Ibovespa conseguiu fugir da derrocada das bolsas nos EUA e Europa, mas em junho novas preocupações levaram a uma queda superior a 10%. Nos seis primeiros meses do ano a alta foi de 1,77%, pior desempenho desde o primeiro semestre de 2005.

Há pouca certeza sobre o futuro do índice, porém fatores estruturais da economia e das empresas brasileiras auxiliam na construção das estimativas até o final de 2008, período que pode barrar o ciclo de alta da Bolsa brasileira, que já dura cinco anos.

Para contribuir com o debate, a InfoMoney convidou analistas de bancos e fundos globais e nacionais a opinar e responder: "Quais são as suas expectativas para o mercado brasileiro de ações até o final do ano? O desempenho pode superar o de outros emergentes?" - Abaixo você encontra a resposta de cada convidado.



"Acima dos outros mercados"
Por Luiz Ribeiro
Diretor do HSBC Global Asset Management


"Apesar da boa performance do mercado brasileiro nos últimos cinco anos, o Brasil é negociado a um P/L de 12,5x para os ganhos de 2009. O nível está em linha com a média dos Mercados Emergentes. As ameaças para a economia brasileira são as mesmas para a maioria dos mercados neste estágio do ciclo atual: crescimento da inflação e os riscos da economia norte-americana.

Olhando para estes dois principais riscos, o Brasil está relativamente bem posicionado quando comparado a outros mercados emergentes. O país é um grande produtor de alimentos (uma fonte de pressão inflacionária) e é menos dependente do petróleo devido à produção crescente.

O Brasil também é menos dependente da economia norte-americana, diante da maior importância de outros mercados (China, Índia e Europa). Sem dúvida o Brasil não está imune à ameaça da inflação e aos problemas nos EUA, mas acreditamos que continuará com uma performance acima de outros mercados emergentes dados as suas vantagens competitivas e ao nível atual de valuation, que não é maior do que outros emergentes".


"Baseado em commodities"
Por Allan Nichols
Estrategista internacional da Morningstar


"O mercado brasileiro tem registrado uma performance excepcionalmente boa e com um dos melhores desempenhos deste ano, enquanto muitos outros registraram quedas enormes no período. Isto é resultado dos recursos naturais, que impulsionaram a Vale, Petrobras e a agricultura.

Devido à performance acima da média no primeiro semestre, estou menos empolgado daqui para frente caso outros mercados iniciem uma reversão por causa do baixo desempenho recente.

Agora, no segundo semestre, se as preocupações atuais com a inflação na Ásia e nos EUA persistirem estes mercados podem continuar em queda nos próximos seis meses. O Brasil, entretanto, com os seus recursos naturais, deve continuar com um desempenho melhor até o final do ano.

No longo prazo não estou muito otimista, não que acredite em uma reviravolta do mercado brasileiro, mas porque quando as coisas se acalmarem em outros mercados, o upside deles será maior".


"Grande oportunidade"
Por Willian Landers
Gestor do fundo América Latina da BlackRock


"O que está acontecendo na Bolsa hoje não tem muito a ver com os fundamentos economia do Brasil ou das empresas. É um nervosismo global que começou nos EUA e está afetando a expectativa de crescimento mundial.

Estou no Brasil visitando companhias e tudo que ouço é que a demanda e a economia continuam bem. Existe o problema inflacionário aqui como no resto do mundo, e a maior parte relacionada aos alimentos e ao petróleo.

Continuo otimista com as expectativas à Bolsa brasileira. Estamos em um momento no qual a volatilidade vai continuar, mas, para quem tem paciência, estes pequenos períodos de queda dentro de um período de alta, como o que tivemos nos últimos quatro a cinco anos, criam uma grande oportunidade.

Se você olhar para todos os fundos de equities da BlackRock hoje, apenas dois tipos estão com o resultado ainda positivo no ano: América Latina e os de Commodities. Mesmo assim vemos que em reais as bolsas mexicana e brasileira estão praticamente zeradas no ano. Todo esse crescimento da economia e das companhias neste ano não estão sendo precificados, assim como o investment grade.

É um momento super interessante para quem tem estômago de enfrentar as próximas semanas. Para quem tem visão de seis a doze meses, a Bolsa está atraente".


"Razoavelmente otimista"
Por Guilherme Affonso Ferreira
Gestor do RB Fundamental, fundo de ações da Rio Bravo Investimentos

"Estou razoavelmente otimista com o Brasil porque as empresas e a economia estão muito bem, com resultados melhores do que o ano passado. Obviamente o Brasil não será uma ilha dentro do mundo se a questão americana começar a afetar muito a demanda de produtos.

Todos pontos fortes do Brasil, como a capacidade agrícola e uma província mineral enormes, que em um determinado momento do desenvolvimento eram vistos como de segunda, começaram a ter valorizações enormes com a alta demanda da China e da Índia. E 2008 ainda não está fora desta curva ascendente continua.

No primeiro semestre o Brasil apresentou certo descolamento de alguns mercados do primeiro mundo e até de alguns emergentes. Ao longo da primeira metade do ano isto chegou a parecer verdade. No mês de junho, entretanto, com as notícias ruins do setor financeiro norte-americano, a bolsa brasileira caiu. A questão do descolamento, que começava a ser provada, voltou a ser duvidosa.

Continuo achando que algum grau de descolamento vai haver porque a economia brasileira é muito mais baseada em produtos que ainda estão sob um impulso positivo vindo principalmente do sudeste asiático e da China, que tem incorporado multidões ao mercado consumidor".


"Acima dos emergentes"
Por Cameron Brandt
Analista global de mercado da EPFR Global

"O fluxo nos fundos que cobrimos sugere que os investidores estão mais otimistas em relação ao Brasil que a maioria dos principais mercados emergentes, com exceção da Rússia (petróleo) e Taiwan (mudança política abriu portas para aproximação com a China).

Dado a crença principal de que, atualmente, o boom das commodities tem mais força do que qualquer outro tipo de investimento, ficaria surpreso se o Brasil não registrar um desempenho superior a maioria dos mercados emergentes nos próximos seis meses.

Não há também sinal de risco político num horizonte imediato. Enquanto a agenda de reformas de Lula parece ter dado espaço aos prazeres de formar um sucessor por uma grande folha de pagamento pública e elevado gasto público, ele não vai a lugar algum e a sua administração ainda está com um superávit primário.

O Banco Central, entretanto, reafirmou aos investidores que está disposto a se sobrepor pressões políticas com o objetivo de controlar a inflação. No longo prazo eu não tenho tanta certeza. Estruturalmente, o Brasil ainda é uma confusão, como é evidenciado pelo fato de que um crescimento de 5% é o suficiente para gerar pressões inflacionárias que exigem uma taxa básica de juro de dois dígitos.

A projeção de 10 a 20 anos das tendências de orçamento atuais também sugere que as finanças públicas não estão em tão boa forma quanto o noticiário sugere".


"Mercado mais seletivo"
Por Ignacio Goñi
Chefe de pesquisa da Riedel Research para a América Latina


"A minha perspectiva não é tão positiva quanto foi no passado. Vemos o mercado brasileiro com sólidos fundamentos e também com companhias com valuations que já incorporam estes fundamentos no seu preço atual. Esperamos que a economia tenha um desempenho bom, com crescimento do consumo interno.

Não vemos a inflação como um problema extraordinário para a economia brasileira, especialmente com o esforço do Banco Central em relação a isso. Quanto à apreciação do Real, acreditamos que as empresas exportadoras já conseguiram um ganho de produtividade, o que deve compensar.

Será um mercado muito mais seletivo nos próximos seis meses, particularmente porque as empresas que correspondem por grande parte do índice tem avançado pela demanda global das commodities, e não especialmente pelo esforço da direção das empresas.

Vemos que muitos investidores tiveram excelentes retornos apenas ao ter uma exposição geral aos índices que possuem o mercado brasileiro nos últimos três a quatro anos. E isto agora mudou".


"Perspectiva positiva"
Por Valmir Celestino
Gestor de Renda Variável do Banco Safra

"A minha expectativa para o mercado brasileiro no segundo semestre é positiva por dois motivos: primeiro porque o preço das commodities deve continuar forte neste período, beneficiando o Ibovespa, que tem mais de 50% composto por empresas de commodities; em segundo, acredito que o resultado das empresas vai continuar forte, com um crescimento de 20% nos lucros em média em relação ao mesmo período do ano passado.

As commodities beneficiam a bolsa brasileira comparativamente com a de outros emergentes. Por isso também acredito que a performance da Bovespa será maior do que a de outros emergentes. O fator de risco no mercado interno é a taxa básica de juros, que está subindo. Mas como ela veio para combater a inflação, isso não chega a atrapalhar de forma significativa o resultado das empresas.

O risco do lado externo seria um agravamento da crise de crédito nos EUA e Europa, o que é muito difícil de prever e antecipar. Porém como os bancos já estão realizando os prejuízos, com o passar do tempo estes riscos começam a ser mitigados. Boa parte do que está acontecendo já foi precificado".