terça-feira, 1 de julho de 2008

O Mundo acordou para a inflação?

O mundo acordou para a inflação, ou seria melhor, a inflação acordou o mundo? O que
mais temos lido nos jornais são relatos de pessoas que mudaram os seus hábitos devido aos aumentos nos preços dos alimentos e combustíveis. O mais interessante que essas matérias utilizam exemplos que vão desde países industrializados como os EUA, até países pobres como a Tailândia, passando pelos emergentes, como a China.

Portanto, podemos dizer que a tese do descolamento do mundo com relação à crise financeira
americana "falhou" e de forma surpreendente, a contaminação se deu não diretamente sobre o
crescimento como se esperava, mas sobre a inflação que, agora, vai limitar o crescimento mundial.
Como isso ocorreu?

Para responder a essa pergunta, devemos voltar ao mestre do monetarismo e prêmio Nobel de
economia em 1976, Milton Friedman, que dizia que "a inflação é, antes de tudo, um fenômeno
monetário". Portanto, as previsões de que a desaceleração das principais economias mundiais levaria o restante do mundo a um crescimento mais moderado e, com isso, os preços das commodities a níveis mais baixo, foi "por água abaixo" após a forte injeção de liquidez feita pelos principais Banco Centrais mundiais para conter a crise financeira.

Para entender isso devemos voltar ao básico da economia, a lei de oferta e demanda, que a despeito da criatividade de economistas no Brasil e no mundo em vários períodos da história, nunca conseguiu ser revogada. Considerando a moeda como um bem como outro qualquer, ao se aumentar fortemente a sua oferta em um período relativamente curto de tempo, temos a sua conseqüente perda de valor, que no caso da moeda se traduz em inflação.

Dessa forma, o erro de previsão dos analistas estava em subestimar a reação dos BCs, principalmente o FED, à crise financeira. A redução agressiva das taxas de juros e a injeção de capital diretamente no sistema fez o papel desse aumento substancial de oferta e a sua conseqüência foi a sustentação da trajetória de alta dos preços das commodities e a conseqüente inflação mundial.

Discussões sobre a participação dos emergentes na manutenção do crescimento mundial e na
realimentação desse processo são apenas visões parciais de um fenômeno monetário mais amplo. Ou seja, o atual processo inflacionário mundial que até agora era visto por todos como "importado" passou a ser visto como um problema "doméstico" e, apesar das reações ainda tímidas de alguns países, deixou de ser um problema que, como era de todo mundo, não era de ninguém.

Essa mudança de postura perante o processo de elevação dos preços em escala mundial é muito
importante para as perspectivas de inflação brasileira no médio prazo. Sem dúvida o "pontapé" inicial da aceleração inflacionária se deu através dessa inflação "importada".

Entretanto, esse "choque" pegou a economia brasileira aquecida, como fica claro pelo fato da demanda interna estar crescendo acima de 7,0%, enquanto o PIB algo próximo de 5,5%, para um PIB potencial que mal chega a 5,0%. Isso fez com que, o que seria uma pressão pontual sobre os alimentos e algumas matérias primas, que tenderiam a se auto esgotar pela perda de renda disponível, acabasse ganhando contornos de inflação de demanda.

O reflexo disso é o grupo de serviços do IPCA que, havia recuado para níveis abaixo de 5,0% ao longo de 2007, mas já está convergindo para valores acima de 6,00%, o que não era visto desde 2006. Portanto, não há mais dúvidas se o BC brasileiro acertou ou não de iniciar o processo de aperto monetário em abril, mas sim se ele se antecipou ou não ao processo inflacionário. Entretanto, mesmo com essa dúvida, as perspectivas para a inflação brasileira no médio prazo são favoráveis.

A atuação do Copom em consonância com o reconhecimento que a inflação mundial é um problema de todos, deve arrefecer a demanda interna, ao mesmo tempo em que os preços externos vão deixar de ser um a fonte de pressão. A questão será como fazer a transição até esse médio prazo. Nisso a inflação corrente tem um papel importante na formação das expectativas futuras de inflação e, infelizmente as notícias não são favoráveis.

O IPCA de maio fez muito mais do que ficar acima das expectativas do mercado (0,79% contra 0,65%), deixou claro que a inflação corrente no Brasil está mais espalhada do que anteriormente esperado. O índice de difusão alcançou 71,35%, o maior desde abril de 2003 e o índice de aceleração, que mede a direção do movimento, chegou à 52,60%, o maior resultado desde julho de 2006.

O pior é que as coletas, tanto no atacado quanto no varejo não "dão refresco" para os números de junho e já temos algumas pressões encomendadas para julho, como os aumentos do aço, da Mega Sena e das tarifas de energia elétrica em São Paulo. Portanto, algum alívio, talvez, apenas para agosto, quando a inflação acumulada em 12 meses já terá ultrapassado 6,00% e estará caminhando para o topo da meta, 6,5%, que deverá ser rompido em outubro.

Então, podemos não cumprir a meta de inflação em 2008? A resposta é sim e a probabilidade disso ocorrer dependerá da trajetória dos alimentos ao longo do segundo semestre. Por enquanto as perspectivas não são favoráveis. Questões climáticas nos EUA e políticas na Argentina vem mantendo pressionado os preços da soja e do milho, base das rações das aves, suínos e bovinos.

O reflexo disso já pode ser visto nos contratos futuros da arroba do boi gordo que projetam um aumento de 25% até o final do ano. Além disso, as negociações salariais de categorias importantes, como a dos comerciários, bancários, metalúrgicos e petroleiros, deverão redundar em ganhos reais que darão um novo gás para a demanda.

A conclusão é que a perspectiva de médio prazo para a inflação no Brasil é favorável, mas a dinâmica de curto prazo sugere cautela. O cenário de maior probabilidade continua sendo de convergência para o centro da meta de 4,5%, pela combinação tanto de uma política monetária restritiva por parte do BC brasileiro para conter a demanda interna, com por uma mudança de postura da maioria dos BC internacionais no sentido de conter a pressão dos preços das commodities.

Entretanto, o interregno até que este cenário fique claro é bastante perigoso com várias pressões
causando desvios relevantes de curto prazo nos índices de preços, colocando, inclusive, o topo da meta para 2008 sob risco. Portanto se faz mister uma atuação firme da Autoridade Monetária do Brasil para que esses desvios não causem efeitos mais fortes sobre as expectativas de inflação, o que faria com que a dita convergência se fizesse de forma mais lenta e com maiores sacrifícios.

*Luis Otavio de Souza Leal é economista-chefe do ABC Brasil