terça-feira, 1 de julho de 2008

Plano Real: 14 anos depois, o que mudou na vida do brasileiro

Por: Karin Sato

No dia 1º de julho de 1994, o então presidente Itamar Franco lançou o Plano Real, na tentativa de pôr um fim a um problema que tirava o po
der de compra do brasileiro, penalizando principalmente os mais pobres: a inflação.

Antes dele, o Brasil teve inúmeras moedas - leia-se tentativas de melhoria no plano econômico. Para se ter uma idéia, na lista de cédulas emitidas pelo Banco Central, há o Cruzeiro (1942-1967), o Cruzeiro Novo (1967-1970), o Cruzeiro (1970-1986), o Cruzado (1986-1989), o Cruzado Novo (1989-1990), o Cruzeiro, pela terceira vez, (1990-1993) e o Cruzeiro Real (1993-1994).

Mas foi o Plano Real que marcou a nova era da economia brasileira, uma economia que, graças ao seu dinamismo e estabilidade, se enquadrou no seleto grupo dos emergentes (ao lado de Rússia, China e Índia). Uma economia que, para economistas, e de acordo com prognósticos, poderá ser coroada com o título de desenvolvida já em 2020.

Para o secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, o Plano Real foi "muito importante" para o País, porque acabou com a alta inflação. "Foi engenhoso e fez uma reforma monetária. Foi bem-sucedido em reduzir a inflação de níveis elevadíssimos para níveis administráveis. Naquela época, conseguiu reduzir o grau de indexação da economia e reduziu a inflação utilizando uma âncora cambial que, naquela época, era o instrumento disponível".

Hiperinflação é página virada
De fato, diante da alta nos preço
s dos alimentos e do petróleo em âmbito mundial, o que ninguém pode mais dizer é que a economia brasileira não agüenta uma pressão inflacionária como a que protagonizamos atualmente.

Na opinião do professor da Faculdade de Economia da USP (Universidade de São Paulo), Heron do Carmo, é quase impossível que a inflação volte a atingir patamares parecidos com os de 1993, quando o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, a medida oficial de inflação para o governo) chegou a 2.477% no ano.

"Para trazer de volta a inflação, teríamos de acabar com a democracia, voltar com a indexação formal de preços, com os bancos estatais, e isso parece que não tem volta", explicou, em entrevista à Agência Brasil.

Ele ainda afirmou que o aumento dos produtos nos últimos meses não ameaça a condição alcançada pela economia nacional. "Depois de 14 anos, poderemos ter surtos de inflação periódicos, mas não teremos mais os índices de aumento de antes do Real".

Real tratou da "doença" da economia, não dos sintomas
Um dos responsáveis pela implantação do Plano Real, o economista Gustavo Franco, que foi presidente do Banco Central entre 1997 e 1999, enfatizou que o Real foi o primeiro a tratar da "doença" da economia brasileira, e não dos sintomas. "A natureza do problema era fiscal. O governo gastava muito mais do que arrecadava. Conseguimos reduzir esse problema, ao mesmo tempo em que combatemos outros".

Tirando a atenção da inflação, da qual tanto se tem falado nos últimos meses e de forma mais intensa nas últimas semanas, Franco diz que se trata de matéria superada. Hoje, o País tem outros desafios. "Temos problemas de finanças públicas e carência de reformas", disse.

O Real e a construção de um processo institucional
Os 14 anos posteriores ao lançamento do Plano Real foram, provavelmente, os mais importantes da história brasileira no último século, no sentido da construção institucional. A afirmação é do economista Samuel Pessoa, do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da Fundação Getulio Vargas.

"Acho que o País passa por um processo fantástico de construção de instituições. E uma dessas instituições é a moeda". Pela primeira vez na história, o Brasil experimentou um processo democrático, após o fim do regime militar.

"Estamos construindo uma democracia que, na verdade, nunca tínhamos tido antes. Estamos conseguindo uma coisa fantástica, que é a construção de uma democracia dinâmica e aberta, ao lado de um processo de estabilização progressiva da nossa macroeconomia e da economia também", afirmou.

Em verdade, o Plano Real implicou muitos erros também. Todavia, para Pessoa, "os acertos superam os erros em grande medida".

Real teria caído no esquecimento?
Por sua vez, o presidente do Corecon/RJ (Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro), João Paulo de Almeida Magalhães lamentou, também à Agência Brasil, que o Plano Real tenha caído no esquecimento da população, porque o Brasil não tem uma academia que mantenha e aprofunde seu estudo. Ele lembrou que, no primeiro ano do real, o PIB (Produto Interno Bruto, a soma das riquezas produzidas pelo País) cresceu cerca de 8%.

Evitando tropeços
Sem dúvida, a economia brasileira avançou muito, tendo como primeira conseqüência o aumento da qualidade de vida da população, principalmente a de baixa renda. Mas ainda é preciso evitar tropeços e contornar os erros, ainda que estes tenham sido minimizados pelos acertos. Para Nelson Barbosa, por exemplo, o Plano Real acabou em 1999. "Desde então, houve uma mudança no regime de política para o câmbio flutuante, para meta de inflação e para meta de resultado primário, que não faziam parte da concepção inicial do regime", explicou.

"O desafio da política econômica agora é sempre administrar o que a gente chama de trade-offs [as trocas]. Ou seja, você tem agora uma questão que é baixar rapidame
nte a inflação sem desacelerar muito a economia. Se você quiser só baixar a inflação rapidamente, você consegue desacelerando bastante a economia. A arte está em balancear e não escolher um dos extremos. O mesmo vale para a política fiscal. Você quer cortar gasto público, pode fazê-lo sem responsabilidade social. Mas também não se pode manter a responsabilidade social gastando demais, sem nenhuma preocupação".

O presidente do Corecon concorda, ao lembrar que os próprios pais do Plano Real foram trabalhar, em sua maioria, em bancos. "E, para os banqueiros, o que interessa é essa política baseada na taxa de juros, porque são eles que lucram com os juros. Os bancos, hoje, estão ganhando R$ 160 bilhões ao ano com os juros, que é mais do que o Brasil gasta com segurança, saúde e educação". Como mudar esta equação parece muito difícil, um verdadeiro impulso no crescimento econômico - e não em sua estabilização -, que poderia ampliar de forma significativa o bem-estar do brasileiro, ficou à margem deste cenário.