sábado, 10 de maio de 2008

O impacto do investment grade nas projeções

Por: Fernando Caio Galdi

A notícia não poderia ter vindo em melhor hora. Em meio a uma aparente crise no mercado financeiro internacional o Brasil recebeu o tão esperado grau de investimento. As ações negociadas na Bovespa voltaram a se valorizar significativamente em conseqüência da sinalização que essa classificação representa para o mercado internacional.

Haverá mais fluxos de recursos para os investimentos necessários em infra-estrutura, nos setores produtivos e no mercado financeiro. Grandes fundos internacionais poderão alocar seus gigantescos recursos na economia brasileira. Em suma, os investidores internacionais passam a ter maior confiança no país e agora olham para o Brasil como um mercado mais seguro.

Apesar da euforia inicial, creio que ainda é cedo para estimarmos todos os benefícios (e as maiores responsabilidades) que a obtenção do grau de investimento trará para o Brasil, mas como o próprio governo brasileiro reconhece essa é apenas uma das etapas a serem cumpridas. Agora temos que nos preocupar em evoluir dentro da escala dos países considerados como grau de investimento.

E ainda há muito trabalho a ser feito, como a reforma tributária, a diminuição do peso do Estado na economia, as reformas das agências reguladoras, investimentos em infra-estrutura e a finalização do processo de migração para as normas contábeis internacionais.

Em relação ao mercado de capitais, um importante impacto que a obtenção do grau de investimento traz é a necessidade de revisão das estimativas dos analistas. Certamente há mudanças que deverão ser incorporadas ao custo de capital das empresas, no acesso ao crédito no mercado internacional, no crescimento das vendas (exportações), na diversificação de fornecedores, na liquidez dos papéis, etc.

Contudo, os analistas devem ficar atentos para não serem excessivamente otimistas para determinadas empresas. Esse risco existe na medida em que sejam estimados impactos demasiadamente positivos pela obtenção do grau de investimento. A revisão das estimativas deve ser realizada de maneira idiossincrática, levando-se em conta o impacto dessa nova realidade nos fundamentos de cada empresa.

É importante salientar que, provavelmente, empresas que tinham menos acesso ao mercado internacional podem se beneficiar de forma mais intensa dessa nova fase. Claro, desde que a empresa esteja comprometida e disposta a encarar o desafio dessa nova empreitada do mercado de capitais brasileiro.

Quando digo que empresas com menor acesso ao mercado internacional poderão se beneficiar mais (na margem) do que grandes empresas que já usufruem da confiança desse mercado, parto do raciocínio de que daqui em diante haverá maiores chances para aquelas se financiarem a taxas mais competitivas.

As blue chips, que já acessavam o mercado internacional e usufruem há mais tempo dos seus benefícios, serão também beneficiadas, mas provavelmente em uma menor intensidade do que as demais empresas. Agora, portanto, abre-se espaço para novos projetos e investimentos, pois o volume de recursos disponíveis aumentará para as empresas brasileiras em geral. Aumentará também a fiscalização desses novos financiadores, que exigirão mecanismos mais fortes de governança corporativa.

Dentro dessa nova realidade as empresas terão que apresentar a disciplina exigida pelo mercado, correndo o risco, se falharem, de terem fortes penalizações no preço de suas ações e no seu crédito.

Nesse sentido, os analistas de ações terão um trabalho árduo em entender como essa nova realidade, chamada grau de investimento, afetará as empresas brasileiras. Ficamos na espera de novos relatórios.

Doutor em Ciências Contábeis pela FEA-USP, Fernando Caio Galdi é professor da FUCAPE Business School e escreve mensalmente na InfoMoney, às quintas-feiras.
fernando.galdi@infomoney.com.br