segunda-feira, 19 de maio de 2008

O lado amargo da obtenção do "Investment Grade"

Por: Alex Agostini

Caros leitores, desde o final de 2007 tenho expressado em minha coluna relativo otimismo com o mercado acionário brasileiro, que inclusive foi título da minha coluna em duas ocasiões: i) 05/Nov/2007 "Céu de Brigadeiro para o mercado acionário brasileiro em 2008"; e ii) 28/jan/2008 "Financiamento corporativo, bolsa é a bola da vez". Nas duas colunas a essência foi evidenciar o forte crescimento e desenvolvimento do mercado acionário brasileiro, que mesmo diante da crise vivenciada na terra do Tio Sam desde junho de 2007, que ocasionou o arrefecimento das OPAs por aqui, o país tem rompido fronteiras na área de gestão financeira pós-equilíbrio econômico (estabilidade da taxa de inflação).

A questão do Investment Grade também é um tema muito abordado em minhas colunas e que, naturalmente, tem muita relação com as finanças corporativas do país, em particular do mercado acionário. No último dia 30 de abril uma importante agência internacional de classificação de risco elevou a classificação do Brasil para "BBB-", graduando a República Federativa do Brasil ao primeiro nível do seleto grupo de países com título de "Investment Grade" ou "Grau de Investimento" e, com isso, dá o primeiro e um importante passo para descolar-se do rótulo de um país para investimentos meramente especulativos.

Como era de se esperar, a bolsa de valores de São Paulo (Bovespa) deu um novo salto e mudou de patamar após a obtenção do grau de investimento e segue firme acima dos 70 mil pontos e com forte tendência de encerrar o ano ao redor dos 80 mil pontos, salvo a ocorrência de eventos inesperados. A expectativa de que outras agências de classificação também elevem a nota do Brasil tem reforçado o cenário de otimismo quanto ao mercado acionário.

O reflexo da obtenção do grau de investimento nos agregados econômicos é, em sua maioria, positivo e deve surtir efeito no médio prazo, ao longo dos próximos 24 meses, com elevação significativa do nível de investimento no país que, por sua vez, pode elevar o potencial de crescimento do PIB brasileiro para algo entre 4% e 5% nos próximos cinco anos.

Porém, há o lado amargo da obtenção do grau de investimento, como, por exemplo, a deterioração das contas externas, em particular da balança comercial, que deve registrar este ano um saldo em torno de US$ 20 bilhões, queda de 50% sobre 2007. Isso ocorre em virtude da expectativa de entrada ainda maior de recursos estrangeiros e que vai acentuar o processo de valorização do Real, podendo a cotação cair para R$ 1,50/US$ ou abaixo disso ainda neste primeiro semestre.

Por outro lado, o governo tem tentado, mas por enquanto sem sucesso, interromper o processo de valorização da moeda nacional adotando diversas alternativas. Primeiro foram realizados diversos leilões de Swap cambial, fato que tornou o governo federal credor do mercado em título indexado ao câmbio. Concomitantemente, o governo está elevando o vigor do programa de recomposição das reservas internacionais, que já atingem US$ 200 bilhões, e agora adota medidas de cunho fiscal para estimular as exportações, tentando compensar parte da perda gerada pela queda do Dólar.

O retorno do debate da criação do Fundo Soberano também é uma esperança do governo federal, em particular do Ministério da Fazenda, para ao menos amenizar o processo de valorização da moeda nacional frente ao Dólar norte-americano (R$/US$), pois visa a utilização de aproximadamente US$ 20 bilhões das reservas para criação do fundo, portanto, elevaria a demanda por moeda estrangeira e ao menos estabilizaria a cotação da moeda no patamar atual. A expectativa do governo de frear o processo de valorização do Real não deve surtir efeito ao menos por dois motivos, sendo um doméstico e o outro externo. Pelo lado doméstico, o atual nível elevado da taxa de juro real (6,5%), e que deve subir ainda mais até o final do ano devido ao processo de aperto monetário imprimido pelo Copom, é o principal obstáculo do governo.

Pelo lado externo, o problema está no processo de redução da taxa de juros nas economias industrializadas, em especial os EUA, pois consideradas porto seguro aos investimentos e com a taxa de juro em queda, os investidores realocam seus recursos para outros ativos como commodities e países emergentes, sendo, nesse sentido, o Brasil o maior beneficiado na recepção de capital externo por conta tanto do elevado diferencial da taxa de juros como por ser um dos principais produtores de commodites e agora potencializado pela redução do seu nível de risco com a obtenção do "Grau de Investimento".

Alex Agostini é economista-chefe da Austin Rating e escreve mensalmente na InfoMoney, às segundas-feiras.
alex.agostini@infomoney.com.br