sexta-feira, 6 de junho de 2008

Crédito consignado: seu orçamento está preparado para um rendimento menor?

Por: Patricia Alves

Com as taxas de juros mais baixas do mercado e com a relativa facilidade de contratação, o crédito consignado - com desconto na folha de pagamento - ganhou adeptos em todas as camadas da sociedade.

Funcionários públicos, privados ou beneficiários do INSS viram na modalidade uma forma de conquistar certos sonhos de consumo. Para a instituição credora, a operação é relativamente segura, pois o pagamento sai direto do contra-cheque do trabalhador ou do benefício pago pela Previdência Social.

Entre as regras, no entanto, está a determinação de que a parcela não pode ultrapassar 30% do rendimento líquido do trabalhador, aposentado ou pensionista. Esse é um ponto importante, que deve ser levado em consideração: no mês seguinte após a contratação do empréstimo, seu salário ou benefício será 30% menor. Seu orçamento está preparado para isso?

Contas mentais
No caso do consignado, como ele já vem descontado da sua folha de pagamento, a certeza que você tem é que seu rendimento líquido mensal será menor - no caso citado, 30% menor.

Assim, na planilha de orçamento, você deve deixar isso claro. Se o seu rendimento atual é de R$ 3 mil líquidos - já descontados os impostos -, passe, a partir da contratação do crédito, a contar com apenas R$ 2.100.

Evite utilizar de recursos que a psicologia econômica cham
a de contas mentais. Essas contas, mais comuns do que se imagina, podem acabar com nosso planejamento, pois são um artifício que nos faz imaginar que a nossa renda é suficiente para muito mais gastos do que ela realmente comporta.

No caso específico do consignado, um exemplo de conta mental seria simplesmente esquecer do débito e contar com um rendimento líquido sem contabilizar esta despesa. Como o pagamento sai direto do holerite e, teoricamente, não é necessária uma programação mensal para a quitação das parcelas, fica fácil ignorar a despesa e continuar planejando os gastos com base no rendimento de, segundo o exemplo, R$ 3 mil.

De acordo com a psicanalista, consultora na área de psico-economia e representante da IAREP (International Association for Research in Economic Psychology) no Brasil, Vera Rita de Mello Ferreira, muitas vezes, essas contas mentais são feitas de forma inconsciente. No entanto, tendo ciência de que elas existem, fica mais fácil tomar cuidado na hora de planejar e calcular, fazendo com que o seu orçamento seja o mais real possível.

Impacto no planejamento
Antes de contratar um empréstimo, é preciso avaliar se você vai conseguir pagar esta dívida e, como seu rendimento mensal será menor em razão do desconto consignado, algumas questões devem ser levantadas, antes da contratação do crédito: será que suas despesas cabem dentro deste montante reduzido? Seu planejamento está preparado para isso?

Avalie se suas despesas, a princípio as mesmas consideradas antes do empréstimo, cabem na sua receita líquida de impostos e da parcela do consignado. Se perceber que os gastos estão maiores que os ganhos, avalie a possibilidade de cortar algumas despesas correntes, como a assinatura de uma revista que você não lê ou a mensalidade do clube que você "quase nunca" usa.

Caso não seja possível cortar gastos, repense a necessidade da tomada do crédito. Esse empréstimo é mesmo necessário ou seria mais um capricho para evitar a frustração de não realizar um sonho imediato?

Questionar a real necessidade da compra, principalmente quando esta envolve um período de endividamento e comprometimento da renda, é um passo importantíssimo para colocar suas contas em ordem e manter seu planejamento financeiro organizado.