sexta-feira, 6 de junho de 2008

Etanol brasileiro termina conferência da ONU sob ressalvas

O Brasil obteve uma meia vitória na cúpula sobre a crise mundial de alimentos, promovida nesta semana em Roma pela Organização das Nações Unidas (ONU). Sob pressão de brasileiros e americanos - que produzem etanol à base de milho -, o texto final do encontro não trará termos negativos ao combutível. Em vez disso, o documento mencionará apenas que esse mercado ainda precisa enfrentar ´desafios` e explorar ´oportunidades`. Os biocombustíveis são acusados por muitos especialistas de serem os principais responsáveis pela crise mundial dos alimentos, ao desviarem terras e grãos do consumo humano para a geração de energia.

A defesa mais veemente do etanol foi feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na abertura da cúpula, Lula afirmou que ´muitos dos dedos apontados contra a energia limpa dos biocombustíveis estão sujos de óleo e carvão`. Com isso, Lula atribuiu a oposição ao avanço do etanol ao lobby da indústria petrolífera, e negou que o biocombustível tenha impacto na inflação dos alimentos que preocupa o mundo desde meados do ano passado. Para ele, as causas da atual crise alimentar seriam a alta do petróleo, a queda dos estoques reguladores, a maior demanda por alimentos na Ásia, as mudanças cambiais e o protecionismo dos países mais desenvolvidos, acusados por Lula de práticas agrícolas desleais.

Apesar de não receber uma menção negativa no relatório final do encontro, o etanol não convenceu por completo os representantes da ONU. Olivier De Schutter, consultor da ONU para direito alimentar, afirmou que é preciso controlar a produção de etanol para evitar que a fome mundial se agrave. De Schuter propõe que os Estados Unidos e a União Européia abandonem sua política de expansão dos biocombustíveis. Embora não mencione o Brasil, a posição também prejudica a estratégia brasileira de liderar a formação de um grande mercado mundial de bioenergéticos, segundo o jornal Valor. Não é apenas o consultor da ONU que deseja conter a expansão do etanol. As próprias usinas brasileiras já se articulam para disciplinar a produção, mas por um motivo bem diferente. Com a expansão desenfreada, o preço de venda do álcool está em queda. Em algumas regiões, o combustível já estaria sendo vendido por um preço abaixo do custo. Por isso, os usineiros estudam meios de regular a oferta. O governo brasileiro já assinalou com a possibilidade de adotar um preço mínimo para o combustível.