segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Muitos consensos e poucas medidas, porém G-20 ganha força de combate à crise

Por: Gustavo Kahil

Os países do G-20 chegaram mais uma vez a uma série de consensos, desta vez em Washington, nos EUA, no último final de semana (15-16). O comunicado de onze páginas divulgado depois da reunião de seis horas pouco adiciona em relação às medidas de curto prazo ao distribuído após o encontro realizado em São Paulo durante os dias 8 e 9 de novembro, mas chega a importantes objetivos.

Quatro passos foram definidos: reforma na supervisão do sistema financeiro, em linha com princípios da transparência e integridade; ações coordenadas globais em estímulos fiscais e monetários; moratório de 12 meses para medidas protecionistas de comércio; comprometimento em considerar em detalhes as reformas nas instituições internacionais como o FMI (Fundo Monetário Internacional).

"O comunicado tem propostas entusiasmadas sobre o que precisa ser feito de uma forma geral, mas nada específico", afirma Andrew B. Busch, estrategista global da BMO Capital Markets, em relatório.

Os líderes dos países que respondem por entre 85% e 90% do PIB (Produto Interno Bruto) global concordaram em avançar com reformas nas instituições financeiras internacionais e na regulação até 31 de março.

Mais incentivo fiscal
Diversos bancos centrais já lançaram mão de políticas monetárias, com agressivos cortes de juro no Reino Unido e EUA. O BCE (Banco Central Europeu) e o BoJ (Bank of Japan) também reduziram juros. "Acredito que em adição aos anúncios já feitos, veremos nas próximas semanas muitos países seguindo com medidas expansionistas fundadas nesta posição internacional", afirmou o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, ao Congresso do país, nesta segunda-feira.

"É bem-vinda a ênfase no estímulo fiscal, que acredito agora ser essencial para restabelecer o crescimento global", disse o diretor-geral do FMI, Dominique Strauss-Kahn, por meio de nota. "O estímulo fiscal de cada país pode ser duas vezes mais efetivo em levantar a produção doméstica caso os maiores parceiros de negócios também tenham um pacote de estímulo", opina Strauss-Kahn. A OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) disse recentemente que, sob as condições atuais, "o mecanismo de transmissão monetária enfraqueceu".

O encontro não ficou longe das expectativas dos economistas, uma vez que estas não eram ousadas. Segundo o presidente norte-americano George W. Bush, "um encontro não irá resolver os problemas do mundo". Vários países ricos já enfrentam recessão: Reino Unido, Japão, Zona do Euro, Itália e Alemanha. A OCDE disse que as economias dos seus trinta países-membros "parecem ter entrado em recessão".

Em comunicado divulgado nesta segunda-feira, a OCDE mostrou comprometimento em trabalhar em conjunto ao G-20 para atingir os objetivos de maior regulação dos mercados financeiros, além do apoio às políticas de estímulo financeiro e outras para contribuir à retomada do crescimento econômico de longo prazo.

"Negligenciar outros desafios importantes como mudanças climáticas, migração, desenvolvimento da busca pelos Objetivos do Milênio ou a necessidade de concluir com sucesso a agenda da Rodada Doha irá resultar em outras crises no futuro", disse o secretário-geral da OCDE, Angel Gurría.

Berlusconi pede fortalecimento do G-8
É o fim do G-8? Perguntou um jornalista ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em coletiva depois da reunião em Washington, no último domingo.

"Eu não diria que é o fim do G-8, porque o G-8 também, depois de tanto tempo reunido, virou um clube de amigos, em que as pessoas vão continuar se reunindo. O dado concreto é que, pela força política, pela representação dos países que foram inseridos no G-20, eu penso que não tem mais nenhuma lógica tomar decisões sobre economia, sobre política, sem levar em conta esse fórum de hoje", disse o presidente.

Esta visão, entretanto, não é compartilhada pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, que assume a presidência do G-8 no próximo ano. Ele insiste que o grupo ainda se mantém relevante, apesar da ascensão do G-20. "Na realidade, alguns problemas precisam ser discutidos por países que possuem democracias maduras uma vez que outros países - que fazem parte do G-20 - ainda estão na direção da democracia", afirmou durante teleconferência em Verona, na Itália.

O grupo volta a reunir-se em 30 de abril de 2009, quando o G-20 passa a ser presidido pelo Reino Unido. Será a primeira participação da equipe do novo presidente norte-americano Barack Obama.