segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Mercado prevê queda de até 50% no minério de ferro

Analistas dizem que recuo terá impacto no preço das ações ao longo de 2009

Natalia Gómez

Depois de cinco anos de altas consecutivas, quando acumulou ganho de 370%, o preço do minério de ferro deve ter a sua primeira retração em 2009. Segundo especialistas no setor de mineração, a Vale não conseguirá evitar redução de pelo menos 20% nos preços – analistas mais pessimistas prevêem recuo de até 50% no ano que vem. O ajuste é atribuído à expectativa de redução da demanda no mercado internacional, em função da crise.

Afetadas pela retração do consumo de aço, as empresas siderúrgicas reduziram drasticamente suas compras nos últimos meses e anunciaram cortes de produção, o que levou as mineradoras a seguirem o mesmo caminho, à espera da redução dos estoques que se formaram nos portos, especialmente na Ásia.

As previsões de bancos, corretoras e economistas para o preço do minério em 2009 refletem este cenário. A corretora Ágora Invest projeta queda de 28%, em linha com a previsão da GAP Asset Management, da Fator Corretora e da RC Consultores, que prevêem recuo de cerca de 30%. A corretora Geração Futuro espera queda de 20% a 25% nos preços, enquanto a Banif Securities acredita que o preço do minério deve recuar cerca de 20%.

O banco Credit Suisse informou, em relatório, que o atual consenso de mercado prevê queda de 40% a 50% nos preços, embora o banco espere redução de até 9%. Segundo o banco, os chineses pretendem obter descontos de 20% a 82% nos preços do insumo.

Os dados mais recentes de produção de aço na China agravaram os temores do mercado porque mostram a terceira queda de volume em três meses. Em novembro, a produção chinesa de aço recuou 12,4% em comparação com o registrado no mesmo mês do ano passado, para 35,2 milhões de toneladas. Na comparação com outubro, a produção de aço diminuiu 18%. A queda havia sido de 17% em outubro e de 9% em setembro.

Segundo a Fator Corretora, o enfraquecimento da produção siderúrgica mundial é a maior ameaça para as mineradoras em 2009. "Os dados são ruins para o setor e devem continuar negativos nos próximos meses", avalia o analista da Modal Asset Wellington Senter. A retração também apresentou reflexo no preços do aço, que caiu 50% desde julho no mercado internacional.

Atenta às novas perspectivas, a Vale anunciou vários cortes de produção, tanto em minério de ferro quanto em metais não-ferrosos, como o níquel, o que levou à demissão de 1,3 mil funcionários no Brasil e no exterior. Segundo especialistas, a iniciativa deve ajudar a estimular o consumo dos estoques e permitir a recuperação do preço do aço a partir do segundo semestre de 2009. A retomada dos preços vistos em 2008, no entanto, só deve ocorrer após 2010, segundo o economista da RC Consultores Fábio Silveira.

Esta chance de melhora no cenário deve fazer com que a Vale tente adiar ao máximo o fechamento dos novos preços do minério de ferro em 2009, que começam a vigorar em abril. Do outro lado, as siderúrgicas pressionam por um fechamento rápido, com o objetivo de forçar a queda de preços. "As negociações podem se arrastar pelo segundo trimestre de 2009. Esperamos que a falta de clareza e de confiança pesem sobre as ações das mineradoras até então", informou o Credit Suisse em relatório.

O banco Goldman Sachs também acredita que o acordo poderá ser alcançado apenas no segundo trimestre porque existem alguns complicadores, como a busca por diferenciais de preço baseados em frete ou qualidade, impactos cambiais devido à apreciação do dólar ante o real e o dólar australiano e a queda do frete marítimo. O relatório levanta a hipótese de que as empresas adotem um novo mecanismo de preços, como contratos ajustados trimestralmente.

Outra possibilidade levantada por especialistas é de que o minério ferro australiano sofra queda maior do que o minério brasileiro. Neste ano, as mineradoras australianas conseguiram obter um preço melhor devido ao menor custo de frete entre Austrália e China do que entre Brasil e China. A queda do preço do frete, no entanto, tirou a vantagem dos australianos. A diferença entre o frete dos dois países gira em torno de US$ 3 por tonelada, bem abaixo dos US$ 65 de diferença registrados no pico do mercado.