Analistas dizem que recuo terá impacto no preço das ações ao longo de 2009
Natalia Gómez
Depois de cinco anos de altas consecutivas, quando acumulou ganho de 370%, o preço do minério de ferro deve ter a sua primeira retração em 2009. Segundo especialistas no setor de mineração, a Vale não conseguirá evitar redução de pelo menos 20% nos preços – analistas mais pessimistas prevêem recuo de até 50% no ano que vem. O ajuste é atribuído à expectativa de redução da demanda no mercado internacional, em função da crise.Afetadas pela retração do consumo de aço, as empresas siderúrgicas reduziram drasticamente suas compras nos últimos meses e anunciaram cortes de produção, o que levou as mineradoras a seguirem o mesmo caminho, à espera da redução dos estoques que se formaram nos portos, especialmente na Ásia.
As previsões de bancos, corretoras e economistas para o preço do minério em 2009 refletem este cenário. A corretora Ágora Invest projeta queda de 28%, em linha com a previsão da GAP Asset Management, da Fator Corretora e da RC Consultores, que prevêem recuo de cerca de 30%. A corretora Geração Futuro espera queda de 20% a 25% nos preços, enquanto a Banif Securities acredita que o preço do minério deve recuar cerca de 20%.
O banco Credit Suisse informou, em relatório, que o atual consenso de mercado prevê queda de 40% a 50% nos preços, embora o banco espere redução de até 9%. Segundo o banco, os chineses pretendem obter descontos de 20% a 82% nos preços do insumo.
Os dados mais recentes de produção de aço na China agravaram os temores do mercado porque mostram a terceira queda de volume em três meses. Em novembro, a produção chinesa de aço recuou 12,4% em comparação com o registrado no mesmo mês do ano passado, para 35,2 milhões de toneladas. Na comparação com outubro, a produção de aço diminuiu 18%. A queda havia sido de 17% em outubro e de 9% em setembro.
Segundo a Fator Corretora, o enfraquecimento da produção siderúrgica mundial é a maior ameaça para as mineradoras em 2009. "Os dados são ruins para o setor e devem continuar negativos nos próximos meses", avalia o analista da Modal Asset Wellington Senter. A retração também apresentou reflexo no preços do aço, que caiu 50% desde julho no mercado internacional.
Atenta às novas perspectivas, a Vale anunciou vários cortes de produção, tanto em minério de ferro quanto em metais não-ferrosos, como o níquel, o que levou à demissão de 1,3 mil funcionários no Brasil e no exterior. Segundo especialistas, a iniciativa deve ajudar a estimular o consumo dos estoques e permitir a recuperação do preço do aço a partir do segundo semestre de 2009. A retomada dos preços vistos em 2008, no entanto, só deve ocorrer após 2010, segundo o economista da RC Consultores Fábio Silveira.
Esta chance de melhora no cenário deve fazer com que a Vale tente adiar ao máximo o fechamento dos novos preços do minério de ferro em 2009, que começam a vigorar em abril. Do outro lado, as siderúrgicas pressionam por um fechamento rápido, com o objetivo de forçar a queda de preços. "As negociações podem se arrastar pelo segundo trimestre de 2009. Esperamos que a falta de clareza e de confiança pesem sobre as ações das mineradoras até então", informou o Credit Suisse em relatório.
O banco Goldman Sachs também acredita que o acordo poderá ser alcançado apenas no segundo trimestre porque existem alguns complicadores, como a busca por diferenciais de preço baseados em frete ou qualidade, impactos cambiais devido à apreciação do dólar ante o real e o dólar australiano e a queda do frete marítimo. O relatório levanta a hipótese de que as empresas adotem um novo mecanismo de preços, como contratos ajustados trimestralmente.
Outra possibilidade levantada por especialistas é de que o minério ferro australiano sofra queda maior do que o minério brasileiro. Neste ano, as mineradoras australianas conseguiram obter um preço melhor devido ao menor custo de frete entre Austrália e China do que entre Brasil e China. A queda do preço do frete, no entanto, tirou a vantagem dos australianos. A diferença entre o frete dos dois países gira em torno de US$ 3 por tonelada, bem abaixo dos US$ 65 de diferença registrados no pico do mercado.