Em seu livro "Memórias Póstumas de Brás Cubas", Machado de Assis eternizou a célebre frase "Se bela, porque coxa? Se coxa, porque bela?". Analisando as perspectivas para a economia global, a MCM Consultores chegou a uma conclusão similar para a atual recuperação, que, segundo a instituição, acontece sem empregos, sem crédito e fortemente calcada nas muletas governamentais.
"Nossa recomendação para os otimistas é ir devagar com o andor, que a melhora é, em boa medida, de barro" aconselham os analistas da consultoria econômica, após terem lançado um olhar mais crítico (e profundo) sobre os fundamentos dos recentes desempenhos dos PIBs (Produto Interno Bruto) das maiores economias do globo.
Equilíbrio distante
Citando Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), a MCM destaca que, para que seja efetivamente atingido um novo arranjo macroeconômico, se faz necessário um "equilíbrio mais sustentável das contas correntes das principais economias mundiais".
"Resumidamente, olhando apenas para os principais jogadores do arranjo que ficou conhecido como Bretton Woods II, a China precisa reduzir suas exportações líquidas (poupar menos) e os EUA aumentá-las mais significativamente (poupar mais) para que o crescimento mundial torne-se mais sustentável" explicam os analistas.
Porém, a simples lição acima esbarra em um importante ponto: a inflexibilidade do governo chinês em relação ao seu regime de câmbio fixo, que garante o volume de exportações do país. Logo, "é apenas natural ser cético a respeito de uma mudança imediata neste importante item".
Círculo vicioso
Contudo, a recuperação da economia internacional não é barrada apenas pelo obstáculo chinês. O recente desempenho dos países centrais do planeta, que tanto animaram os mercados, esconde um perigoso círculo vicioso de esmagamento da oferta de crédito. "Algo como uma creditless recovery parece estar em curso" aponta a consultoria.
Em um cenário de crise, a tendência geral do mercado é aumentar a liquidez e reduzir o risco, o que se traduz em contração da oferta de empréstimos por parte dos bancos, que, por sua vez, vêm enfrentando dificuldades para levantar fundos via emissão de papéis. Esta tendência é agravada pela perspectiva de reforma regulatória no setor, demandando maiores requerimentos de capital, o que, mais uma vez, inibe o oferecimento de crédito.
Esta retração vitima, especialmente, as empresas pequenas, maiores responsáveis pela geração de empregos na economia. De fato, em matéria da última semana, o periódico britânico The Economist alertou para o risco de inanição financeira das pequenas empresas na Grã-Bretanha.
O problema, conforme destacado pelo membro do comitê de política monetária do Bank of England, Adam Posen, é que o Banco Central não consegue difundir o financiamento por toda a economia devido, justamente, à ação dos bancos.
O próprio Lloyds Banking Group se mostrou preocupado com fato de várias empresas estarem "caminhando sonâmbulas" rumo à recuperação, após uma pesquisa apontar que um terço dos pequenos empresários britânicos não tomaram nenhuma medida para preparar suas empresas para uma retomada da atividade econômica.
"O ciclo perverso se fecha com a associação positiva entre desemprego e inadimplência, potencializando a trava inicial do crédito", aponta MCM Consultores.
A recuperação manca
"O centro de nossas preocupações para o crescimento mundial no médio prazo tem endereço certo, a economia norte-americana" revela a consultoria. É exatamente nela que surge um novo personagem no cenário econômico: a recuperação manca.
Decompondo os fatores que levaram à expansão de 2,8% no PIB dos EUA no terceiro trimestre, percebe-se que 1,34 ponto percentual advém do item consumo privado de bens duráveis, que, por sua vez, é "fortemente dependente da muleta dos incentivos fiscais". Outra importante contribuição veio da rubrica de investimento residencial, com 0,43 ponto percentual, também alvo de programas de incentivo.
"E o investimento privado não-residencial, fundamental para dar sustentabilidade à retomada? Qual sua contribuição? Resposta: negativa em 0,4 ponto percentual", conclui a MCM Consultores.
"Nossa recomendação para os otimistas é ir devagar com o andor, que a melhora é, em boa medida, de barro" aconselham os analistas da consultoria econômica, após terem lançado um olhar mais crítico (e profundo) sobre os fundamentos dos recentes desempenhos dos PIBs (Produto Interno Bruto) das maiores economias do globo.
Equilíbrio distante
Citando Olivier Blanchard, o economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), a MCM destaca que, para que seja efetivamente atingido um novo arranjo macroeconômico, se faz necessário um "equilíbrio mais sustentável das contas correntes das principais economias mundiais".
"Resumidamente, olhando apenas para os principais jogadores do arranjo que ficou conhecido como Bretton Woods II, a China precisa reduzir suas exportações líquidas (poupar menos) e os EUA aumentá-las mais significativamente (poupar mais) para que o crescimento mundial torne-se mais sustentável" explicam os analistas.
Porém, a simples lição acima esbarra em um importante ponto: a inflexibilidade do governo chinês em relação ao seu regime de câmbio fixo, que garante o volume de exportações do país. Logo, "é apenas natural ser cético a respeito de uma mudança imediata neste importante item".
Círculo vicioso
Contudo, a recuperação da economia internacional não é barrada apenas pelo obstáculo chinês. O recente desempenho dos países centrais do planeta, que tanto animaram os mercados, esconde um perigoso círculo vicioso de esmagamento da oferta de crédito. "Algo como uma creditless recovery parece estar em curso" aponta a consultoria.
Em um cenário de crise, a tendência geral do mercado é aumentar a liquidez e reduzir o risco, o que se traduz em contração da oferta de empréstimos por parte dos bancos, que, por sua vez, vêm enfrentando dificuldades para levantar fundos via emissão de papéis. Esta tendência é agravada pela perspectiva de reforma regulatória no setor, demandando maiores requerimentos de capital, o que, mais uma vez, inibe o oferecimento de crédito.
Esta retração vitima, especialmente, as empresas pequenas, maiores responsáveis pela geração de empregos na economia. De fato, em matéria da última semana, o periódico britânico The Economist alertou para o risco de inanição financeira das pequenas empresas na Grã-Bretanha.
O problema, conforme destacado pelo membro do comitê de política monetária do Bank of England, Adam Posen, é que o Banco Central não consegue difundir o financiamento por toda a economia devido, justamente, à ação dos bancos.
O próprio Lloyds Banking Group se mostrou preocupado com fato de várias empresas estarem "caminhando sonâmbulas" rumo à recuperação, após uma pesquisa apontar que um terço dos pequenos empresários britânicos não tomaram nenhuma medida para preparar suas empresas para uma retomada da atividade econômica.
"O ciclo perverso se fecha com a associação positiva entre desemprego e inadimplência, potencializando a trava inicial do crédito", aponta MCM Consultores.
A recuperação manca
"O centro de nossas preocupações para o crescimento mundial no médio prazo tem endereço certo, a economia norte-americana" revela a consultoria. É exatamente nela que surge um novo personagem no cenário econômico: a recuperação manca.
Decompondo os fatores que levaram à expansão de 2,8% no PIB dos EUA no terceiro trimestre, percebe-se que 1,34 ponto percentual advém do item consumo privado de bens duráveis, que, por sua vez, é "fortemente dependente da muleta dos incentivos fiscais". Outra importante contribuição veio da rubrica de investimento residencial, com 0,43 ponto percentual, também alvo de programas de incentivo.
"E o investimento privado não-residencial, fundamental para dar sustentabilidade à retomada? Qual sua contribuição? Resposta: negativa em 0,4 ponto percentual", conclui a MCM Consultores.