quinta-feira, 26 de junho de 2008

Qual a melhor estratégia, apostar na retomada da bolsa ou migrar à renda fixa?

Por: Roberto Altenhofen Pires Pereira

Os investidores que entraram na bolsa seduzidos pela expectativa de mais um ano de diversos IPOs (Ofertas Públicas Iniciais de Ações), ou mesmo após a concessão do investment grade ao País por duas renomadas agências de classificação de risco, com olhos apenas na expectativa de ganhos expressivos em curto intervalo de tempo, não se deparam com o cenário esperado.

Depois de cinco anos consecutivos de significativa valorização, a bolsa brasileira encontra em 2008 um obstáculo diferente. Algumas ações atreladas ao setor de commodities, em geral, não mostram a mesma força e os desdobramentos dos problemas da economia norte-americana põem em xeque este ciclo positivo do mercado doméstico.

O retrato desafiador da bolsa pode frustrar os mais inexperientes. No mês de junho, o saldo do Índice Bovespa é negativo em quase 10%. Sem o retorno esperado, surgem questionamentos quanto ao futuro do mercado de ações.

Será que é momento para migrar para a segurança da renda fixa, ou apostar na recuperação das ações? As estratégias podem ser variadas, mas o atual cenário reserva algumas premissas que podem indicar a melhor postura por parte do investidor.

Selic pode determinar rumos
Uma boa pista pode ser olhar para o cenário macroeconômico brasileiro. A ameaça inflacionária já se tornou realidade entre consecutivos indicadores que apontam para a aceleração da alta de preços.

Este fator tende a mexer ainda mais com o retrato do mercado, uma vez que envolve a taxa Selic. Qualquer sinal de variação mais expressiva nos preços remete imediatamente a aperto monetário. E uma trajetória ascendente do juro básico brasileiro até o final do ano parece consenso entre os analistas, o que tende a levar o juro básico brasileiro para algo entre 14% e 15% ao ano.

Somente esta premissa já
mexe com duas variantes. O investidor pode buscar ações que mais se beneficiariam da alta do juro, como o financeiro; bem como fugir de setores penalizados pela maior dificuldade na concessão de crédito, como varejo e construção civil.

Outra questão que vem à tona é a aposta na renda fixa. Para os mais conservadores, a tendência ascendente da Selic incorpora viés positivo quanto aos títulos públicos, além da relativa segurança desta alternativa de aplicação. O investidor se limita a ganhos auferidos pelo pagamento do juro citado sem se expor aos riscos do investimento em bolsa.

A hora da renda fixa
De olho nesta questão, os analistas disseram acreditar que o momento realmente favorece este tipo de aplicação. Na avaliação de Silvio Campos Neto, economista do banco Schahin, a tendência da Selic e o cenário às ações trazem de volta a renda fixa como opção mais atrativa de investimento. "Essa migração de recursos já está inclusive se refletindo na bolsa", salienta o analista.

Como o rumo dos mercados acionários ainda é incerto, o investidor mais conservador pode, ainda, combinar as duas alternativas de investimento, expondo parte de seu capital às ações e resguardar outra fatia na segurança da renda fixa. Na opinião de Clodoir Vieira, economista da corretora Souza Barros, trocar uma parte do capital para a renda fixa é aconselhável no momento.

A estratégia cabe a cada investidor decidir. Cautela com o mercado pode ser sinônimo de mudança para a renda fixa, mas o cenário de alta da Selic também pode reservar alternativas rentáveis na bolsa.

Apostando na baixa
Por outro lado, algo que para alguns é desconhecido é a estratégia de apostar na baixa do mercado acionário. Torcer para o Ibovespa subir é a reação habitual, mas perspectivas de desvalorização das ações também podem gerar bons frutos para o investidor.

Uma opção para aqueles que vislumbram desvalorizações na bolsa e não querem se desfazer de algum ativo ou apostar na renda
fixa é o aluguel de ações. Se o investidor acredita que seu ativo irá se desvalorizar no curto prazo, mas engatar recuperação em seguida, pode "emprestá-lo" para outro investidor que o toma mediante o aporte de garantias.

Quem aluga também pode se beneficiar de um movimento negativo do mercado. Basta vender o papel alugado imediatamente no mercado e ao término do período de empréstimo, recomprá-lo a preço mais baixo do que o vendido anteriormente, ganhando na arbitragem. O objetivo desta operação é conseguir comprar o mesmo papel alugado e depois vendido a valor inferior ao tomado no empréstimo.

Outra estratégia que entra em pauta para os que apostam na baixa pode ser o investimento no mercado de deriva
tivos, em opções. Como exemplo: comprar determinada ação a R$ 52 e lançar uma opção de venda a R$ 50, acreditando em sua desvalorização, pode ser uma estratégia bem sucedida caso a opção de venda seja exercida e se consiga adquirir o mesmo ativo no mercado em valor inferior à soma do prêmio da opção com o preço pago originalmente pelo papel.

Em outras palavras, a vantagem do investidor estaria no ganho auferido com o prêmio da opção e com o exercício desta opção superando o valor originalmente pago pelo ativo. No exemplo dado, os R$ 50 recebidos com o exercício da opção somado ao prêmio recebido no mercado de derivativos devem superar os R$ 52 pagos inicialmente pela ação.