terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Do grau de investimento à entrada na crise, veja como foi 2008 para o Brasil

Por: Marcelo Olsen Saad

Um início de promissor e vigoroso crescimento econômico, um meio marcado por duas notas grau de investimento e um fim delineado pelos efeitos da crise mundial. Grosso modo, assim foi o turbulento ano de 2008 para a economia brasileira.


O Início

Com a ajuda fundamental do setor industrial, os primeiros três meses do ano já sinalizavam uma forte expansão da atividade econômica. Neste período, o PIB (Produto Interno Bruto) do País apresentou um crescimento de 5,8% em relação ao apurado no mesmo período de 2007, atingindo R$ 665,5 bilhões.

Nos três meses que se seguiram, números ainda melhores foram vistos nesse sentido. Porém, desta vez o impulso veio da agropecuária e dos serviços financeiros, e o PIB brasileiro apresentou uma evolução de 6,1% na base anual.

Com isso, o resultado consolidado não poderia ser diferente. A economia do País mostrou expansão de 6% no primeiro semestre em comparação com igual intervalo do ano passado. Na primeira metade de 2007, a alta havia sido de 4,9% sobre um ano antes.

Pressões inflacionárias
Todavia, esta evolução na atividade econômica veio acompanhanda de uma intensa alta nos índices de preços, o que trouxe preocupações aos economistas brasileiros na primeira metade do ano.

A inflação oficial, calculada pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), encerrou o primeiro semestre em 3,64%, maior taxa para um primeiro semestre desde 2003. Em 12 meses, a taxa acumulada era de 6,06%, a maior nesta base de comparação desde novembro de 2005.

O principal impacto veio dos alimentos, que acumularam aumento de 8,64% no período. O grupo representou 1,88 ponto percentual do IPCA. Alimentos e bebidas também exerceram o maior impacto no IPCA acumulado nos 12 meses terminados em junho de 2008, com uma variação de 15,79%.

Política monetária
Avaliando essas pressões inflacionárias domésticas e o cenário externo turbulento, o Copom (Comitê de Política Monetária) decidiu na primeira reunião do ano, por unanimidade, manter a Selic no patamar de 11,25% ao ano; nível esse preservado até a reunião de abril.

No quarto mês, o Comitê declarou que "para a diminuição tempestiva do risco que se configura para o cenário inflacionário", decidiu por unanimidade elevar em 0,50 ponto percentual a taxa Selic, primeira decisão do tipo desde maio de 2005.

Comércio exterior
Passando ao comércio exterior, o primeiro semestre manteve-se em expansão, o que reiterou os avanços do setor produtivo nacional e o vigor da produção voltada para o setor externo. As exportações somaram a cifra de US$ 90,6 bilhões, valor recorde para o período. Enquanto as importações atingiram, igualmente, valor recorde, ao totalizar US$ 79,3 bilhões.

Deste modo, o intercâmbio comercial do Brasil atingiu US$ 169,9 bilhões, com superávit de US$ 11,4 bilhões. Essas cifras indicam aumento da abertura da economia e inserção do Brasil no comércio mundial. No confronto com primeiro semestre de 2007, as exportações cresceram 24,8% e as importações, 51,8%.

Grau de investimento
Salientado o crescimento do PIB, a estrutura de arrecadação do governo, a política de gastos públicos, as contas externas e o nível de endividamento, o tão sonhado selo de grau de investimento foi concedido ao Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor's.

Selo este que foi considerado um reconhecimento do progresso conquistado na gestão macroeconômica do País, na opinião da revista britânica The Economist que, por outro lado, deixou um alerta: algumas fraquezas ainda persistem, principalmente diante da ameaça de expansão dos gastos públicos.

Na seqüência, foi a vez da Fitch Ratings elevar a classificação do Brasil ao mesmo grau. O release da instituição foi enfático ao relacionar o upgrade da nota brasileira à melhoria da política externa e do setor público. A Fitch ainda salientou a menor vulnerabilidade aos choques externos e variações cambiais.

Depois desses eventos, o mercado esperava a elevação da nota pela Moody's, que seria o último entre os três principais nomes em classificação de risco. Contudo, a agência declarou que o Brasil ainda precisa melhorar seus índices de dívida para ter nota elevada.


A Virada

A trajetória do crescimento econômico se manteve no terceiro trimestre, desta vez, graças à indústria. A evolução foi 6,8% na base comparativa anual, atingindo R$ 747,3 bilhões.

Enquanto isso, a medida oficial da inflação doméstica começou a dar sinais de arrefecimento no mês de agosto, quando o IPCA registrou alta de 0,28%, menor taxa desde setembro de 2007, mas ainda sob pressão do preço dos alimentos.

Já no último mês, o IPCA-15 apontou inflação de 0,29%, e fechou o ano com alta de 6,10%. Segundo nota do IBGE, "a redução na variação de dezembro deve-se, principalmente, à forte desaceleração de preços dos alimentos, que, da taxa de 0,90% em novembro, passaram para 0,34% em dezembro."

Aperto monetário
O BC decidiu reforçar o ritmo do ciclo de aperto monetário no mês de julho, com um aumento de 0,75 ponto percentual na taxa, levando-a ao patamar de 13,00% ao ano. Em nota, o Comitê disse que sua decisão levou em conta a avaliação do cenário macroeconômico, "com vistas a promover tempestivamente a convergência da inflação para a trajetória de metas".

O Copom optaria por mais uma elevação no mês de outubro, ainda preocupado com uma eventual deterioração do cenário inflacionário brasileiro, apesar de os indicadores sinalizarem redução no ritmo de alta dos preços. A elevação foi de 0,75 ponto percentual, levando a taxa ao patamar de 13,75% ao ano. A postura da autoridade monetária se manteve até a reunião realizada no dia 10 de dezembro, quando o órgão optou pela manutenção.

Bem-vindo à crise
Tendo como marco inicial a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers em meados de setembro, a crise econômica mundial começou a mostrar seus sinais na economia brasileira no segundo semestre. Entre os principais setores afetados destacam-se a indústria e o varejo.

Os indicadores divulgados pelo CNI (Confederação Nacional da Indústria) referentes ao mês de outubro mostraram desaceleração na atividade industrial. De acordo com o gerente-executivo de Política Econômica da CNI, Flávio Castelo Branco, já há sinais negativos. "Agora, o que temos são sinais de inflexão. Isso já é reflexo da crise internacional", afirmou.

O mercado varejista brasileiro também vive situação similar. Considerando os ajustes sazonais, o volume de vendas do setor teve baixa de 0,3% em outubro frente ao mês anterior, enquanto a receita nominal apontou queda de 0,1% no período, segundo dados do IBGE.

Como já era esperado pelos analistas, as vendas de bens duráveis, que são mais dependentes do crédito, foram as primeiras a serem impactadas e continuarão sendo as mais penalizadas, enquanto o consumo de bens de menor valor deverá ser menos afetado, na visão da Link Investimentos.

Recessão à vista
"Precisamos de inteligência, maturidade e paciência para que a economia continue crescendo e não sofra a recessão que já existe na Europa e nos EUA. O Brasil é um dos países mais preparados para enfrentar a crise", afirmou Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil.

Preparado ou não, o País deverá ver seu PIB (Produto Interno Bruto) tímido durante o quarto trimestre deste ano, além de uma recessão econômica em 2009 e novo ciclo de afrouxamento monetário. Essas são as projeções do Morgan Stanley para a economia brasileira.

Ao olhar para a história econômica local, os analistas do banco vêem sua tese acerca do crescimento do País ganhar força, ao passo que a variação declinante média do PIB durante as três últimas crises - mexicana em 1995, asiática em 1997 e norte-americana em 2001 - foi de 5,8%. Nesse sentido, a instituição financeira projeta que a principal variável macroeconômica do País mergulhará para zero até o final de 2009, abandonando a expansão robusta observada no terceiro trimestre deste ano.

Último capítulo
No curto prazo, o pessimismo persiste: o Morgan Stanley prevê oscilação negativa de 1% no PIB real durante o último trimestre de 2008, ao passo que os indicadores divulgados já explicitam o recuo, com destaque principalmente à deterioração na indústria, responsável por parcela significativa da expansão nacional.

As projeções são contrapostas pelas estimativas divulgadas no relatório Focus desta segunda-feira (22). Espera-se que a economia brasileira cresça 5,60% em 2008. Entre otimistas e pessimistas, grandes desafios são esperados para o próximo ano.