Por: Karin Sato
Acredita-se que tudo tenha começado no mercado imobiliário americano. Há quem discorde da premissa e avalie que o problema já estivesse, há muito tempo, enraizado no mercado financeiro como um todo. De qualquer maneira, a inadimplência de hipotecas de alto risco - que beneficiavam pessoas com poucas condições de honrar compromissos financeiros - atingiu níveis recordes nos Estados Unidos.
"No início, o governo brasileiro teve uma visão simplista do problema, acreditando que a crise iria se limitar ao mercado dos EUA", lembra o diretor do MBA Executivo da Faap, Tharcisio Souza Santos.
Foi quando a marola se transformou em uma onda maior. Hoje, é um tsunami. Os primeiros sinais de que não se tratava de um caso simples e localizado foram os pedidos de socorro de grandes instituições financeiras no exterior. Em abril de 2007, a New Century Financial, especializada em empréstimos subprime (espécie de crédito de segundo linha, que envolve as hipotecas de alto risco), pediu concordata.
O caso do urso
Em julho de 2007, anúncios do banco de investimentos Bear Stearns escancararam que sua liquidez estava se deteriorando de forma significativa. Pouco tempo depois, a instituição foi comprada pelo banco JPMorgan Chase, com a ajuda do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), que contribuiu com até US$ 30 bilhões para os ativos do Bear Stearns que não tinham liquidez suficiente. A razão é que, se o banco afundasse, arrastaria outras empresas do setor financeiro consigo.
A essa altura, é interessante contar uma história que talvez alguns leitores desconheçam. Sabe por que o urso (bear, em inglês) e o touro (bull) são símbolos do mercado financeiro? Dizem que a patada do urso é tão poderosa que acompanha os gráficos de queda das ações na Bolsa. Isso porque o movimento da patada do urso é de cima para baixo. Por sua vez, a do touro é de baixo para cima, remetendo a um movimento de ascensão. Coincidentemente, o Bear Stearns tinha o urso no próprio nome.
As perdas bilionárias
Já em agosto de 2007, ficou claro que não era só o Fed que tinha de agir. Como uma epidemia, a crise havia se espalhado rapidamente - o que não constitui surpresa alguma, uma vez que vivemos em um mundo globalizado, onde os países dependem uns dos outros - e os bancos centrais de outros países ricos começaram a intervir para socorrer as instituições financeiras com problemas de liquidez.
Lembrando que essa falta de liquidez pode ser traduzida como a dificuldade para que um ativo se transforme em moeda corrente. No segundo semestre de 2007, amargavam perdas bilionárias o banco suíço UBS, o Citigroup e o banco de investimentos Merrill Lynch.
2008: o ano das consequências
Em 2008, os bancos centrais continuaram a socorrer as instituições financeiras, bem como passaram a reduzir, mais e mais, as taxas de juros, com o objetivo de estimular o consumo. Para se ter uma idéia, em meados de dezembro último, o Federal Reserve diminuiu a taxa básica de juro dos EUA ao intervalo de zero a 0,25%, para combater a recessão econômica que acomete o país.
O problema é que a crise, que nos primeiros meses de 2008 ainda era chamada de crise do subprime, se transformou em uma crise de confiança, com as pessoas temendo por suas finanças futuras, deixando de gastar para economizar, e as empresas demitindo funcionários e congelando contratações e salários.
Mas o pânico se generalizou por todo o mundo, inclusive no Brasil, quando, em setembro último, o quarto maior banco de investimentos dos EUA, o Lehman Brothers, entrou com pedido de concordata. Desta vez, o Fed não ajudou. Foi a primeira grande instituição financeira a entrar em colapso desde o início da crise.
No dia seguinte, a seguradora AIG teve mais sorte, recebendo uma ajuda de US$ 85 bilhões do Fed, para evitar sua falência. Mas era só a ponta do iceberg. Mais instituições financeiras foram atingidas em todo o mundo.
No Brasil
A crise chegou ao Brasil por meio das instituições financeiras. O motivo é que elas captam recursos no exterior. Com menos dinheiro para emprestar, a solução encontrada por elas foi reduzir a oferta de crédito, encarecendo a tomada de empréstimos e tornando mais rígida a seleção das pessoas físicas e jurídicas a serem beneficiadas. Não é à toa que os empresários passaram a sofrer com problemas de caixa.
Além disso, a crise também foi sentida no Brasil por meio das empresas que apostaram em operações de hedge atreladas ao câmbio. Os contratos foram fechados com instituições financeiras. Foi o caso da Aracruz, da Sadia e da Votorantim, para citar os casos que foram mais comentados pela mídia.
Mas como funcionam as operações de hedge?
Em reportagens e artigos sobre a crise, é possível encontrar muitas vezes referências às operações de hedge, mas seu significado ainda é uma incógnita para muita gente. Trata-se de uma operação ou uma combinação de operações cujo objetivo é proteger o investidor de oscilações bruscas de preços dos ativos financeiros.
Explicando de uma maneira bem simplista, empresas como a Aracruz saíram perdendo - e as instituições financeiras ganhando - porque não previram a valorização do dólar causada pela crise e pela consequente fuga de investimentos estrangeiros. Na realidade, elas haviam fechado contratos para proteger seu fluxo de caixa contra a apreciação do real e a depreciação do dólar. Logo após o aparecimento dos primeiros casos, estimativas davam conta de que as empresas afetadas por operações desse tipo somavam 200.
Fim da crise
O leitor deve estar ansioso e confuso com tantas previsões sobre a crise que saem no noticiário. A má notícia é que ninguém sabe ao certo o tamanho dela e quando deve acabar, e nem poderia. O futuro a Deus pertence, e essa é uma máxima da economia.
Na opinião do professor de Finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), Ricardo Araujo, esta é a maior crise desde a Grande Depressão de 1929. "É difícil dizer quando ela vai acabar. Os governos estão tomando providências, mas, em economia, a gente nunca sabe quando uma ação efetivamente dará resultado. Na minha opinião, a crise deve persistir ainda em 2009 e 2010, porque é uma crise diferente da asiática ou da Nasdaq. Tem gente que aposta em menos tempo e há quem aposte em mais".
O que pode ser considerada uma boa notícia é que a crise não é de todo anormal nem simboliza o fim dos tempos, pelo menos na teoria do economista polonês Michael Kalecki, cujas publicações mais conhecidas tratam dos ciclos econômicos.
"A economia capitalista vive de ciclos. Assim como há períodos de alta, é necessário ter os de baixa. Kalecki foi um dos estudiosos que mais divulgou essa teoria. Nota-se que, antes da crise, a economia havia alcançado um alto grau de alavancagem", afirma o professor de Finanças da FGV, Carlos Alberto Decotelli da Silva.
O susto no investidor
Em 2008, quem tinha dinheiro investido em bolsas de valores pode ter entrado em pânico, já que a crise fez com que os preços das ações despencassem. "Uma séria conseqüência da crise foi a redução nos preços das ações nas bolsas de valores. No caso do Brasil, o principal motivo é que muitos investidores estrangeiros que investiam por aqui tiveram de tirar seus investimentos por conta da falta de liquidez", explica o diretor da Faap, Tharcisio Souza Santos.
Seria a crise mundial uma boa razão para retirar todo o dinheiro da Bolsa; desistir das ações para todo o sempre; ou guardar dinheiro embaixo do colchão? Não, não e não. Quem precisava do dinheiro de imediato, e não pôde esperar mais tempo, certamente perdeu com a queda na Bolsa. Mas quem ainda pode esperar, deve esperar. Quanto tempo? Como já foi dito, é impossível ter certeza do que acontecerá no futuro.
É hora de investir?
Sobre começar a investir agora, nesse período de baixa, há um fato que é pouco abordado: os grandes investidores estão aproveitando para comprar ações agora. Ao contrário de muitas pessoas, que compram na alta, entusiasmadas com os ganhos de conhecidos ou até mesmo com as notícias na imprensa, investidores experientes fazem o contrário: estão sempre comprando na baixa e vendendo na alta.
Mas atenção! Isso só é válido para quem pensa no longo prazo e não precisará do dinheiro investido tão cedo. Se não for seu caso, prefira investimentos de menor risco, como os de renda fixa.
Por fim, vale lembrar que não é por acaso que o consumo é visto como um ato de esperança. O tsunami só vem à tona quando as pessoas deixam de confiar em seu futuro. Por isso, o fim dessa crise depende, essencialmente, de como cada um de nós irá reagir diante das dificuldades. Se todos decidirem se retrair e se proteger contra o futuro que imaginam que será impetuoso, e os empresários deixarem de contratar e investir, é provável que a crise dure muito mais do que imaginamos. É uma questão para refletir!
Acredita-se que tudo tenha começado no mercado imobiliário americano. Há quem discorde da premissa e avalie que o problema já estivesse, há muito tempo, enraizado no mercado financeiro como um todo. De qualquer maneira, a inadimplência de hipotecas de alto risco - que beneficiavam pessoas com poucas condições de honrar compromissos financeiros - atingiu níveis recordes nos Estados Unidos.
"No início, o governo brasileiro teve uma visão simplista do problema, acreditando que a crise iria se limitar ao mercado dos EUA", lembra o diretor do MBA Executivo da Faap, Tharcisio Souza Santos.
Foi quando a marola se transformou em uma onda maior. Hoje, é um tsunami. Os primeiros sinais de que não se tratava de um caso simples e localizado foram os pedidos de socorro de grandes instituições financeiras no exterior. Em abril de 2007, a New Century Financial, especializada em empréstimos subprime (espécie de crédito de segundo linha, que envolve as hipotecas de alto risco), pediu concordata.
O caso do urso
Em julho de 2007, anúncios do banco de investimentos Bear Stearns escancararam que sua liquidez estava se deteriorando de forma significativa. Pouco tempo depois, a instituição foi comprada pelo banco JPMorgan Chase, com a ajuda do Fed (Federal Reserve, o banco central americano), que contribuiu com até US$ 30 bilhões para os ativos do Bear Stearns que não tinham liquidez suficiente. A razão é que, se o banco afundasse, arrastaria outras empresas do setor financeiro consigo.
A essa altura, é interessante contar uma história que talvez alguns leitores desconheçam. Sabe por que o urso (bear, em inglês) e o touro (bull) são símbolos do mercado financeiro? Dizem que a patada do urso é tão poderosa que acompanha os gráficos de queda das ações na Bolsa. Isso porque o movimento da patada do urso é de cima para baixo. Por sua vez, a do touro é de baixo para cima, remetendo a um movimento de ascensão. Coincidentemente, o Bear Stearns tinha o urso no próprio nome.
As perdas bilionárias
Já em agosto de 2007, ficou claro que não era só o Fed que tinha de agir. Como uma epidemia, a crise havia se espalhado rapidamente - o que não constitui surpresa alguma, uma vez que vivemos em um mundo globalizado, onde os países dependem uns dos outros - e os bancos centrais de outros países ricos começaram a intervir para socorrer as instituições financeiras com problemas de liquidez.
Lembrando que essa falta de liquidez pode ser traduzida como a dificuldade para que um ativo se transforme em moeda corrente. No segundo semestre de 2007, amargavam perdas bilionárias o banco suíço UBS, o Citigroup e o banco de investimentos Merrill Lynch.
2008: o ano das consequências
Em 2008, os bancos centrais continuaram a socorrer as instituições financeiras, bem como passaram a reduzir, mais e mais, as taxas de juros, com o objetivo de estimular o consumo. Para se ter uma idéia, em meados de dezembro último, o Federal Reserve diminuiu a taxa básica de juro dos EUA ao intervalo de zero a 0,25%, para combater a recessão econômica que acomete o país.
O problema é que a crise, que nos primeiros meses de 2008 ainda era chamada de crise do subprime, se transformou em uma crise de confiança, com as pessoas temendo por suas finanças futuras, deixando de gastar para economizar, e as empresas demitindo funcionários e congelando contratações e salários.
Mas o pânico se generalizou por todo o mundo, inclusive no Brasil, quando, em setembro último, o quarto maior banco de investimentos dos EUA, o Lehman Brothers, entrou com pedido de concordata. Desta vez, o Fed não ajudou. Foi a primeira grande instituição financeira a entrar em colapso desde o início da crise.
No dia seguinte, a seguradora AIG teve mais sorte, recebendo uma ajuda de US$ 85 bilhões do Fed, para evitar sua falência. Mas era só a ponta do iceberg. Mais instituições financeiras foram atingidas em todo o mundo.
No Brasil
A crise chegou ao Brasil por meio das instituições financeiras. O motivo é que elas captam recursos no exterior. Com menos dinheiro para emprestar, a solução encontrada por elas foi reduzir a oferta de crédito, encarecendo a tomada de empréstimos e tornando mais rígida a seleção das pessoas físicas e jurídicas a serem beneficiadas. Não é à toa que os empresários passaram a sofrer com problemas de caixa.
Além disso, a crise também foi sentida no Brasil por meio das empresas que apostaram em operações de hedge atreladas ao câmbio. Os contratos foram fechados com instituições financeiras. Foi o caso da Aracruz, da Sadia e da Votorantim, para citar os casos que foram mais comentados pela mídia.
Mas como funcionam as operações de hedge?
Em reportagens e artigos sobre a crise, é possível encontrar muitas vezes referências às operações de hedge, mas seu significado ainda é uma incógnita para muita gente. Trata-se de uma operação ou uma combinação de operações cujo objetivo é proteger o investidor de oscilações bruscas de preços dos ativos financeiros.
Explicando de uma maneira bem simplista, empresas como a Aracruz saíram perdendo - e as instituições financeiras ganhando - porque não previram a valorização do dólar causada pela crise e pela consequente fuga de investimentos estrangeiros. Na realidade, elas haviam fechado contratos para proteger seu fluxo de caixa contra a apreciação do real e a depreciação do dólar. Logo após o aparecimento dos primeiros casos, estimativas davam conta de que as empresas afetadas por operações desse tipo somavam 200.
Fim da crise
O leitor deve estar ansioso e confuso com tantas previsões sobre a crise que saem no noticiário. A má notícia é que ninguém sabe ao certo o tamanho dela e quando deve acabar, e nem poderia. O futuro a Deus pertence, e essa é uma máxima da economia.
Na opinião do professor de Finanças da FGV (Fundação Getulio Vargas), Ricardo Araujo, esta é a maior crise desde a Grande Depressão de 1929. "É difícil dizer quando ela vai acabar. Os governos estão tomando providências, mas, em economia, a gente nunca sabe quando uma ação efetivamente dará resultado. Na minha opinião, a crise deve persistir ainda em 2009 e 2010, porque é uma crise diferente da asiática ou da Nasdaq. Tem gente que aposta em menos tempo e há quem aposte em mais".
O que pode ser considerada uma boa notícia é que a crise não é de todo anormal nem simboliza o fim dos tempos, pelo menos na teoria do economista polonês Michael Kalecki, cujas publicações mais conhecidas tratam dos ciclos econômicos.
"A economia capitalista vive de ciclos. Assim como há períodos de alta, é necessário ter os de baixa. Kalecki foi um dos estudiosos que mais divulgou essa teoria. Nota-se que, antes da crise, a economia havia alcançado um alto grau de alavancagem", afirma o professor de Finanças da FGV, Carlos Alberto Decotelli da Silva.
O susto no investidor
Em 2008, quem tinha dinheiro investido em bolsas de valores pode ter entrado em pânico, já que a crise fez com que os preços das ações despencassem. "Uma séria conseqüência da crise foi a redução nos preços das ações nas bolsas de valores. No caso do Brasil, o principal motivo é que muitos investidores estrangeiros que investiam por aqui tiveram de tirar seus investimentos por conta da falta de liquidez", explica o diretor da Faap, Tharcisio Souza Santos.
Seria a crise mundial uma boa razão para retirar todo o dinheiro da Bolsa; desistir das ações para todo o sempre; ou guardar dinheiro embaixo do colchão? Não, não e não. Quem precisava do dinheiro de imediato, e não pôde esperar mais tempo, certamente perdeu com a queda na Bolsa. Mas quem ainda pode esperar, deve esperar. Quanto tempo? Como já foi dito, é impossível ter certeza do que acontecerá no futuro.
É hora de investir?
Sobre começar a investir agora, nesse período de baixa, há um fato que é pouco abordado: os grandes investidores estão aproveitando para comprar ações agora. Ao contrário de muitas pessoas, que compram na alta, entusiasmadas com os ganhos de conhecidos ou até mesmo com as notícias na imprensa, investidores experientes fazem o contrário: estão sempre comprando na baixa e vendendo na alta.
Mas atenção! Isso só é válido para quem pensa no longo prazo e não precisará do dinheiro investido tão cedo. Se não for seu caso, prefira investimentos de menor risco, como os de renda fixa.
Por fim, vale lembrar que não é por acaso que o consumo é visto como um ato de esperança. O tsunami só vem à tona quando as pessoas deixam de confiar em seu futuro. Por isso, o fim dessa crise depende, essencialmente, de como cada um de nós irá reagir diante das dificuldades. Se todos decidirem se retrair e se proteger contra o futuro que imaginam que será impetuoso, e os empresários deixarem de contratar e investir, é provável que a crise dure muito mais do que imaginamos. É uma questão para refletir!