segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Concorde e o investidor em bolsa de valores

Aquiles Mosca


No início da década de 1960, devido ao enorme custo de projeto, os
governos britânico e francês se uniram para tocar adiante o projeto de
um avião de linha aérea supersônico, o Concorde.

A atraente proposta de cruzar o Atlântico de Londres à Nova York em
três horas logo ocupou a imaginação de passageiros e companhias aéreas
e as encomendas iniciais atingiram rapidamente 100 unidades para mais
de 10 linhas aéreas ao redor do globo. O primeiro vôo correu em março
de 1969.

Nesse período, já com o protótipo no ar e fazendo demonstrações em
shows aéreos pelo mundo, as encomendas alcançaram quase 200 unidades
(alguma semelhança com os roadshowsque antecedem uma oferta pública de
ações?).

No entanto, às vésperas da entrada em operação comercial regular, uma
avalanche de cancelamentos de encomendas teve início. A crise do
petróleo em 1972, as dificuldades financeiras enfrentadas pelas
empresas aéreas e a queda do concorrente supersônico russo, o Tupolev
TU-144, durante um show aéreo deixaram os produtores britânico e
francês com apenas 16 encomendas (8 da British Airwayse 8 da Air
France).

Nessa escala, o projeto Concorde jamais seria rentável. Contudo, isso
não impediu os governos da Inglaterra e da França de continuarem a
injetar recursos nessa empreitada, tamanho o comprometimento e energia
despendidos ao longo do caminho.

Não é por outra razão que pesquisadores americanos batizaram de
"efeito Concorde" o viés comportamental segundo o qual um investidor
tem mais dificuldade de se desfazer de um ativo que trás perdas à
carteira de aplicações se sua aquisição foi precedida de muito esforço
(tempo, energia, análise etc). Quanto mais foco se coloca no ativo
perdedor, mais se reforça o compromisso com tal posição e mais difícil
se torna assumir que o investimento em questão foi um erro que precisa
ser eliminado da carteira.

Em vez de se persuadir de que a perda precisa ser assumida, o
investidor passa à postura de que precisa "ir até o fim", ou seja,
conservar ou até mesmo reforçar a posição no ativo perdedor até que ao
menos retorne ao patamar de aquisição inicial.

Ao analisar uma amostra de mais de 600 mil investidores de bolsa nos
EUA ao longo de seis anos, Odean, Strahilevitz e Barber (2005)
comprovaram que, olhando intervalos de 12 meses, esses investidores
reforçaram suas posições em ações que traziam perdas para a carteira
com uma freqüência 55% maior do que com relação a ações que
ocasionavam ganhos no mesmo período.

Adquirir ações e títulos que apresentaram quedas nas cotações é uma
forma usual de trazer para baixo o custo médio de aquisição de tais
ativos e facilitar a busca por uma retomada do patrimônio quando (e
se) uma recuperação de preços ocorrer.

A contrapartida negativa e pouco compreendida desse processo é que à
medida que mais recursos são alocados no ativo perdedor, sua
participação na carteira total aumenta, o que pode resultar em um
portfólio mais concentrado e, conseqüentemente, mais arriscado.

Essa prática de gestão torna-se ainda mais preocupante quando se tem
pouca ou nenhuma certeza quando a prognósticos mais positivos para o
ativo em questão, como no caso dos reinvestimentos seguidos de
recursos públicos franceses e britânicos no Concorde - e que jamais
geraram um retorno compatível à sua viabilidade econômica operacional.

No final das contas, os grandes, lentos e tradicionais 747, DC-10, e
outros aviões de carreira convencionais, subsidiaram todo o
investimento extravagante feito no Concorde e o mantiveram operando
até 2003. Da mesma forma, o investidor deve ficar atento para evitar
que as aplicações que realmente estejam gerando valor para a carteira
total não sirvam de argumento para reter ativos que não apresentem
perspectivas positivas, ou pior, que tenham gerado perdas, apesar de
todo esforço e comprometimento que tenham exigido no passado.